A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte é libertadora."

Foto: Gabriela Miranda

Conversas com Anahi Ravagnani

“Ela te ajuda a entender quem é você, qual é o seu lugar no mundo, quem é o outro, que mundo é esse. A experiência artística é muito humanizadora.”

Os projetos do Transform enfatizam a acessibilidade e a inclusão na área da cultura. Há alguns anos você desenvolveu um trabalho de educação musical com crianças com síndrome de Down. Como foi esse trabalho e quais foram suas descobertas?

A primeira descoberta foi comigo mesma, foi um mergulho dentro de mim, uma viagem perigosa de você se olhar e se questionar, e de entender que existe rejeição, que existe preconceito com as crianças síndrome de down já dentro de casa. Isso mexeu muito comigo. Foi um processo difícil que eu tive que passar em que eu questionei o que eu entendia, inclusive por arte, o que eu queria trabalhar, pra que ela serve, pra quem, e entender o que de fato é acesso e inclusão. Acho que a minha primeira grande descoberta antes mesmo de eu mexer numa partitura musical foi eu vencer essa barreira comigo mesma e questionar o que eu estava fazendo ali e o que eu queria da minha profissão. Quando eu terminei o trabalho, o recado que as crianças me passaram foi muito claro – que a arte não tem barreiras, a educação musical não tem barreiras, que compartilhar uma vivência musical é para todos. Numa sala com crianças síndrome de down as respostas podem ser mais lentas, podem vir de uma forma diferente, mas elas são tão carregadas de significado quanto qualquer outra. Acho que essa foi a minha grande descoberta. Parece uma coisa simples, que ‘a arte é pra todos’, mas quando você vivencia isso na pele, é muito diferente. Isso é extremamente poderoso e por si só é uma coisa que te movimenta e que te transforma como profissional e como ser humano que olha o outro, que enxerga o outro e que sente a inclusão na pele.

Katherine Zeserson, educadora musical britânica que participou do TOL destacou a importância da música na formação da subjetividade.  Como você, que também trabalha com educação musical, enxerga essa questão?

Esse é um assunto que me encanta muito. Eu acho que essa bandeira que a gente na educação musical tem levantado nos últimos anos, de que a educação musical é parte formadora, integral do indivíduo, é fundamental inclusive para defender que a educação musical tem que estar na escola desde a primeira infância. Além do conhecimento técnico a educação musical traz um autoconhecimento, ou seja, o indivíduo entende quem ele é, quais são as suas limitações, quais são as suas potencialidades, e nesse processo as pessoas também passam a enxergar o outro e o mundo em que elas vivem. Isso traz uma noção forte de cidadania e contribui para desenvolver valores éticos, posturas, para evitar comportamentos padronizados. Isso tudo faz com que haja uma formação integral do indivíduo, amplia a visão de mundo das pessoas que estão envolvidas numa criação ou numa apreciação artística. Eu acho que é nesse sentido que a Katherine enfatiza a questão da subjetividade, que vem com esse processo de autoconhecimento e de entender qual é o meu lugar no mundo e o que é o mundo para mim, o que é individual e o que é coletivo. Por isso que a gente defende tanto que a música tem que estar na escola, que ela é parte integral da formação da criança assim como qualquer outra disciplina.

Claudia Toni, ex-Diretora Executiva da OSESP, disse que as orquestras brasileiras estão numa posição confortável por receberem dinheiro do governo e por isso acabam se envolvendo pouco em projetos sociais. Como você vê essa relação?

Eu acho que o que a Cláudia Toni está colocando é uma coisa que lá fora eles já deram esse passo, de entender pra que serve de fato uma orquestra. O que eu vi das orquestras britânicas, é que elas já entenderam que não basta só apresentar uma temporada bonita de concertos, a orquestra precisa estar muito engajada com sua comunidade, precisa dialogar com o espaço onde vive. Então os músicos saem da função de apenas tocar e apresentar música e vão atender a comunidade, vão participar de projetos com idosos, com população de risco, em hospitais, lá eles entenderam que precisa também dessa relação. Aqui ainda estamos um pouco acomodados, embora existam mudanças nesse sentido. As orquestras brasileiras estão se repensando e estão entendendo que a parte social e educacional é um pilar de sustentabilidade da orquestra. Faz parte da estrutura da instituição ter projetos sociais e educacionais em seu cotidiano. Aqui a gente está começando a ter essa consciência, e sem dúvida o TOL tem ajudado muito nesse sentido.

Um dos grandes desafios para o setor de orquestras hoje em dia é como atrair novas audiências e mantê-las. O que a OSB faz nesse sentido?

Esse é um assunto também que está sendo bastante discutido, não só pela gente, mas no mundo todo. Percebe-se que o público está envelhecendo e não está se renovando, então essa é uma preocupação que a gente sempre teve. A OSB tem 76 anos de história, é a orquestra mais tradicional do Brasil. E desde sua fundação, a orquestra tem a preocupação de trazer projetos de acessibilidade. Um exemplo muito tradicional é o projeto Aquários, que são concertos grandiosos, ao ar livre, gratuitos, feitos para grandes plateias. Tem também os concertos para a juventude, em que o maestro conversa com as crianças, o repertório é todo pensado para isso. E a gente atrela aos concertos da juventude um programa chamado Orquestra em Sala, no qual nós recebemos os professores das escolas municipais, estaduais e particulares e um mês antes de cada concerto nós trabalhamos todo o conteúdo que vai ser realizado, os compositores, curiosidades, o contexto de cada obra. É uma educação da sensibilidade das crianças, a gente espera acender uma ponta de curiosidade e que elas voltem, criem um vínculo com a orquestra, com o teatro, com as demais orquestras, e que aquela experiência passe a fazer sentido para eles. A OSB também tem um coro de crianças. Elas entram sem nenhuma vivência musical, aprendem a ler, tem um trabalho de apreciação grande. Esse ano a gente está implementando um projeto pioneiro na América Latina, uma parceria com o Carnegie Hall em que nós vamos colocar duas mil crianças para tocar junto com a OSB no fim do ano. É um trabalho de formação de novas plateias, de incentivar as crianças a fazer música dentro e fora da sala de aula. Elas vão tocar flauta doce e cantar em novembro no concerto. Elas estão trabalhando o repertório desde o começo do ano, a metodologia, para chegar ao final e ter esse grande momento que é o encerramento. É uma festa para elas por todo o trabalho que fizeram.

Nesse intercâmbio com o UK, quais foram as contribuições e aprendizados de cada lado?

Eu acho que a gente tende a aprender com a formalidade dos britânicos e eles com a nossa informalidade, são opostos que se complementam. Por exemplo: a relação que a gente tem com os nossos alunos é muito mais espontânea, é muito mais solta então o aprendizado é mais lúdico, naturalmente mais criativo. As nossas escolas carecem de muita estrutura, então o professor naturalmente busca outras formas de resolver problemas, de lidar com a falta de recursos. Não é que somos criativos por natureza; o contexto leva a gente a ter que encontrar formas criativas de resolver os problemas. Acho que isso é uma coisa que chama a atenção deles e a gente faz com naturalidade porque é empurrado pelo contexto. A informalidade disso tudo, a maneira como a gente trabalha com nossos alunos, a proximidade,  o jeito de falar, somos muito do afeto, do abraço. Isso tudo na área da música e de educação musical contribui para o aprendizado porque é lúdico, espontâneo. E lá acho que a gente tem que aprender o contrário, como a formalidade nos ajuda a ser mais organizados, mais planejados. O planejamento lá não é que nem aqui, que a gente está falando do mês seguinte. Eles estão falando daqui a dois anos, isso dá uma segurança muito grande pra quem trabalha. Você sabe que vai ter tempo pra planejar o projeto, pra executar, pra dar feedback.  O jeito formal dos britânicos tende a ajudar muito nesse sentido. Acho que a organização deles é impecável e isso falta aqui pra gente.

PERFIL

Anahi Ravagnani

Gerente Educacional da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB)

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Transform Orchestra Leadership

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