A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte transforma a existência."

Foto: Lucas Bori

Conversas com Chico Dub

“A gente aqui no Brasil tem a ideia ultrapassada que as coisas são mais fáceis no exterior e muitas vezes o que se dá é o contrário.”

O que seria um festival de culturas sonoras avançadas, como se define o Novas Frequências? O que ele compreende e quais são os objetivos?

É um tipo de proposta que, dentre outras coisas, passa ao largo da estética radiofônica e dos mercados, que utiliza os mais variados ruídos, barulhos, chiados, dissonâncias, microfonias e outros aparentes erros ou elementos não-musicais como matéria prima. Está mais interessada em compor texturas, ambiências e climas do que em criar refrões assobiáveis e considera o computador como o instrumento mais completo e perfeito já inventado pelo homem. [Essa proposta] utiliza a voz como instrumento sonoro ao invés de instrumento retórico e desconstrói instrumentos musicais em função de criar novas possibilidades sônicas, utiliza sons da natureza e da urbe (os “sons ao redor”) e incorpora objetos do cotidiano ao seu backline. Muitas vezes valoriza mais o improviso e a indeterminância do que o ensaio.

A meu ver, o guarda chuva do experimentalismo é o mais fascinante dentro do espectro musical - inclusive por trabalhar com conceitos e estéticas ligadas a questões "não-musicais". Dentro deste universo, praticamente tudo é possível, não há regras pré-estabelecidas. As possibilidades de criação artística são portanto muito maiores do que em festivais de pop, rock, indie ou outros gêneros musicais mais definidos. No experimental, não há concessões ao mercado, não há da parte do artista a vontade primária de vender, de fazer sucesso. Isso para um curador com vontade de ousar e de arriscar é sensacional.

E como aconteceu esse encontro do Novas Frequências com o Transform?

Fomos convidados pelo Transform, via British Council, a integrar a plataforma em 2013. Junto com eles, desenvolvemos os Talking Sounds, série de conversas sobre processo artístico que, sem dúvida alguma, elevaram, e muito, o nível artístico do Novas Frequências. Os Talking Sounds estiveram sempre conectados a performances ao vivo, então era uma maneira muito interessante de aliar teoria e prática dentro do ambiente de um festival. Em três anos, de 2013 a 2015, trouxemos para o NF alguns dos britânicos mais relevantes de toda a cena mundial, nomes como o de David Toop, The Bug, Demdike Stare, Heatsick, Lee Gamble, Cut Hands (William Bennett), Mark Fell, John Butcher e Mark Sanders. Além deles, ainda tivemos Philip Jeck e Auntie Flo, que desenvolveram performances especiais comissionadas após residências artísticas na cidade. Jeck, um artista que trabalha com discos de vinil como matéria prima ("plunderphonics") criou uma peça sonora apenas com discos encontrados e produzidos no Rio e no Brasil. Já Auntie Flo e seu parceiro sul-africano Esa gravaram inúmeros sons tocados por músicos locais e desenvolveram uma colaboração com o percussionista, trompetista e artista sonoro Siri.

O Transform apoiou o intercâmbio entre o NF e o escocês Counterflows, em Glasgow. Como se dá um intercâmbio entre festivais de música e como foi a experiência?

A experiência foi fantástica. Tive carta branca do instituto para viajar pelo período que quisesse. E com o roteiro que inventasse. Tudo em prol de encontrar um possível festival parceiro no Reino Unido para o desenvolvimento de um intercâmbio artístico de longo prazo. Visitei Londres, Manchester, Bristol e Glasgow, conversei com curadores e diretores artísticos, fui a dois festivais durante este período e acabei optando por trabalhar com o Counterflows. Baseado em Glasgow, na Escócia, ele é dirigido por Alasdair Campbell e tem a mesma idade do Novas Frequências (6 anos). O tamanho, o formato e o conceito também são bem parecidos: gostamos de nos espalhar pelas nossas cidades, criando experiências site-specific, e possuímos uma curadoria que busca trabalhar com a inovação e o ineditismo. Há dois anos levamos artistas brasileiros para a Escócia (Negro Leo, Chinese Cookie Poets, Chelpa Ferro) e há dois anos eles trazem escoceses para cá (Cut Hands, Auntie Flo, Trudat Sound).

O que foi aprendido nessa troca? Ela possibilitou alguma transformação na forma como se faz um festival de música no Brasil?

O Counterflows é um festival com perfil low-profile. Tem a chancela de ser um dos mais criativos de todo o Reino Unido, porém sua estrutura é pequeníssima, familiar inclusive. Meu aprendizado com eles é puramente artístico, eu diria. É uma curadoria afiada e afinada demais, tudo parece fazer sentido. Estar em Glasgow durante o festival é uma oportunidade única de entrar em contato com uma produção artística que nunca ouvi falar, inclusive da África e da Ásia, que são dois continentes bastante problemáticos para o Brasil em função dos altos custos de passagem.

Somos muito mais parecidos do que imaginava anteriormente. Na verdade, aprendi que festivais de pequeno e médio porte no Reino Unido e na Europa - não só o Counterflows como dezenas de outros - lutam constantemente para sobreviver. Ano a ano. A gente aqui no Brasil tem a ideia ultrapassada que as coisas são mais fáceis no exterior e muitas vezes o que se dá é o contrário. Um projeto de nicho como o Novas Frequências e o Counterflows nunca se sustentaria, pelo menos não em tão pouco tempo, se não tivéssemos apoiadores. Patrocínio integral mesmo. Temos a sorte de conseguir o apoio incondicional da Oi e do Oi Futuro, além da Secretaria de Estado de Cultura do RJ. Já são seis anos de parceria. Hoje temos outros parceiros, mas sem essa turma não estaríamos onde estamos.

No campo da música, o Brasil é famoso pela MPB e talvez também pelo samba. Você acha que um festival como o Novas Frequências pode mudar essa imagem? Como foi a reação do público britânico aos nossos artistas?

Sem dúvida. Ainda somos vistos no exterior como o país do samba, da MPB e, para os mais antenados, do funk. Nada contra, claro. Mas a nossa produção mais contemporânea, mais experimental, ainda não conseguiu viajar e ser vista lá fora. Se tivéssemos uma agência de exportação musical, uma espécie de instituto como o British Council ou o Goethe, sem sombra de dúvida o cenário seria diferente hoje em dia. A reação aos nossos artistas foi a melhor possível: casa cheia e críticas excelentes em jornais locais e também na publicação inglesa The Wire, a principal do nicho.

Teve algum momento especial durante sua participação no Counterflows, ou durante a participação de artistas britânicos no Brasil que você gostaria de compartilhar?

Como falei, alguns dos maiores artistas que tivemos durante as últimas edições do Novas Frequências vieram da Grã Bretanha. As duas apresentações desconcertantes do Mark Fell na Audio Rebel ainda ecoam na minha cabeça. Cut Hands pesadíssimo com seu techno-voodoo no La Paz também foi um ponto alto. Mas, talvez, o mais emocionante de todos tenha sido o The Bug no Cais da Imperatriz. Montamos um sistema de som especialmente para atender suas demandas técnicas - exigências das mais altas da cena eletrônica, principalmente no que diz respeito às frequências subgraves. O comentário feito por ele nas redes sociais pós-show é daqueles que dá vontade de emoldurar: "Um festival fantástico dirigido por pessoas raras, genuinamente gentis e viciadas em música, aqui no Brasil, que puseram em prática minha fórmula predileta – espaço subdimensionado + equipamento grande demais = pura alegria... Uma avalanche de fumaça, estroboscópios implacáveis, sem palco e visibilidade comprometida = alegria mais profunda”.

 

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