A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte transforma comportamentos."

Conversas com Chico Saboya

“Acho que o papel da arte é mexer com as pessoas, dar uma chacoalhada nos valores convencionais e levar a uma reflexão sobre o mundo.”

O programa Recife: The Playable City surgiu de uma parceria entre o British Council, o Porto Digital e a Watershed, com o apoio do Arts Council England. Qual é o propósito do programa?

O propósito é lançar novos olhares sobre a cidade a partir da perspectiva de dois atores que tradicionalmente não fazem parte do esforço de pensar a cidade, de pensar o meio urbano, que são tecnólogos e artistas. Por séculos as cidades são objeto de engenheiros, arquitetos, urbanistas, economistas e políticos, e esse programa tem essa grande virtude: ele mobiliza dois atores que são super relevantes, os tecnólogos e criativos, e que justamente por nunca terem sido chamados para pensar a cidade podem nos surpreender positivamente no sentido de olhar uma cidade mais humana, mais livable, mais lovable,  essas coisas todas que a gente procura nas cidades e não encontra mais. É isso, ter a oportunidade de, de forma estruturada e com método, interagir não só entre dois países mas entre dois grupos para pensar a cidade. É assim que eu vejo o Recife: The Playable City.

Que soluções foram encontradas a partir da residência criativa no Reino Unido e de que forma o programa pode atuar na recuperação urbana?

Através de novos olhares, em especial de soluções que incorporem uma perspectiva lúdica – as coisas podem ser agradáveis, podem ser gostosas de fazer, não tem que ser necessariamente duras, pesadas, chatas. Na nossa experiência a gente teve paradas de ônibus com conversador:  você está sozinho num ponto de ônibus e um sensor capta isso e interage com você, ele conta histórias, lê poesia, ajuda você a passar o tempo numa tarefa enfadonha que é esperar um ônibus. Esse é apenas um dos exemplos. Algo comum a todas as soluções é esse olhar lúdico, isso ajuda as pessoas a viverem melhor nas cidades para além das soluções frias e duras da engenharia e da arquitetura.

Recife: the playable city foi um projeto piloto no Brasil que já ganhou versões na Nigéria e no Japão. Em termos de modelo de negócio e geração de renda, como ele funciona?

Isso está a dever. Na verdade essa interação entre tecnólogos e criativos deveria ser mediada pela figura do produtor, aquele cara que dá uma racionalidade econômica ao tumulto criativo dos criativos. É o cara que facilita também a vida dos tecnólogos, que oferece algum rumo, porque na verdade os tecnólogos muitas vezes agem mais como inventores, ou seja, pessoas que criam coisas independendo da necessidade. Uma invenção vira inovação quando ela tem uma aplicação prática. Essa tríade de criativos, tecnólogos e produtores tem que funcionar. Eu acho que a gente precisa aprimorar o lado negócio, arranjar uma forma de ampliar o escopo dedicado ao produtor. Ele é a pessoa que vai dizer, diante de uma nova invenção, ‘ok, mas que problema exatamente essa solução atende, a quem ela interessa e como você imagina que pode ganhar dinheiro com isso?’. São perguntas cruciais.  Porque senão vira uma feira de ciências e a gente precisa ir além. Economia criativa implica mercado, implica negócio. Tem que ter pessoas que façam de sua capacidade criativa, de seu talento, uma fonte de geração de riqueza e de emprego.  Seria mais interessante se o produtor iniciasse o processo e lançasse desafios aos criativos – sob a lógica de mercado, convidar os criativos a criarem soluções para problemas existentes.

A economista Lidia Goldenstein enfatizou o papel do design e da inovação no crescimento do setor. Por que estas são questões tão importantes?

Economia criativa carrega o nome ‘criativo’ como a expressão de um tempo novo em que as pessoas podem fazer do talento e da criatividade fontes de geração de riquezas. Isso tem que ser muito claro. Hoje a sociedade está disposta, mais que antes, a pagar pelo lado não-funcional das coisas, por um componente subjetivo, como a estética, a pagar por algo não está na função, está no design. Mas o design não está somente na forma, está na experiência do usuário. Propiciar novas experiências ao usuário está muito ligado ao design. Nesse sentido, ele começa a se aproximar muito da psicologia.  A gente vem migrando, progressivamente, de um contexto de uma economia dura, industrial, para uma economia cada vez mais de serviços. A gente se coloca na transição de um plano de uma economia muito material para uma economia progressivamente desmaterializada porque as informações, o fluxo de informações substitui o fluxo de bens. Informação substitui estoque. Se você tem a informação em todo o seu fluxo de produção, um sistema de informação robusto que mapeie o comportamento do consumidor, você compartilha essa informação ao longo de toda a sua cadeia. Não precisa mais alugar um espaço caríssimo dentro de um shopping, por exemplo, em que você precisa ter estoques imensos, se você tiver a informação. Ela substitui bens físicos. Hoje a inovação é o principal atributo da competitividade.

A Economia Criativa é considerada um dos setores que mais cresce hoje em dia. De que forma ela pode contribuir para um desenvolvimento mais sustentável?

Sustentabilidade é uma coisa incrivelmente necessária. A sociedade industrial clássica da qual somos fruto foi um modelo de desenvolvimento em escala planetária baseado na exploração dos recursos naturais sem uma reflexão sobre o esgotamento desses recursos. É uma questão de desafio da própria espécie. Se a gente mantiver o modo de produção e de consumo dos dias de hoje, nós vamos chegar em 2054 com 10 bilhões de pessoas na Terra. Hoje nós temos sete bilhões e 200 milhões de pessoas, sendo um terço delas mais ou menos abaixo da linha de pobreza. Nesse modelo a gente não sustenta a humanidade, a Terra não tem como prover meios para sustentar 10 bilhões com o desafio de incluir esse 2,5 bilhões de pessoas no mercado de consumo. E não falo de consumo numa perspectiva meramente capitalista, falo das condições materiais básicas que permitem o indivíduo de viver. O mais básico é proteína. Dois bilhões e meio de pessoas não ingerem proteína suficiente para entender essa conversa, para participar dela e se inserir em alguma cadeia produtiva relevante pro futuro da própria humanidade.  Nós vamos ter o desafio de incluir pessoas e de adicionar mais outro tanto de pessoas. Não tem como. Portanto o desafio da sustentabilidade é inadiável, não é apenas como a economia criativa pode contribuir, mas como a inovação e esses personagens criativos podem trazer inovação de nossas práticas cotidianas visando ao máximo atingir padrões de redução dos recursos naturais que vem sendo extirpados no modelo de sociedade atual. Precisamos fazer uma grande revolução na qual a sustentabilidade seja o centro e não apenas uma consequência de um modelo qualquer, e isso tem a ver com o desenvolvimento de novos materiais, com eficiência energética, com reuso, redução e reciclagem.

AUDIO CLIP

PERFIL

Chico Saboya

Economista
CEO Porto Digital

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Recife: The Playable City

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