A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte transforma os seres humanos."

Foto: Célia Bastos

Conversas com Claudia Toni

Faz eles usarem mais seu potencial, irem mais fundo naquilo que são capazes de fazer, explorar partes que eles nem sabem que tem

Mark Pemberton, da Association of British Orchestras (ABO) disse, durante a Conferência Internacional Multiorquestra que é preciso ampliar o alcance da orquestra para fora do concerto. Como podemos fazer isso no Brasil?

Eu tenho um pouco de medo de falar o que eu vou dizer porque sou politicamente formada na esquerda e não quero ser mal interpretada, primeiro porque tenho convicção de que é dever do Estado bancar Cultura como banca Educação e Saúde. Porém, estou começando a desconfiar que no Brasil o fato do Estado prover demais fez com que as instituições se portassem mal demais. Eu acho que no geral os artistas no Brasil são muito alienados em relação ao que está acontecendo na área educativa. Qualquer instituição cultural dos países ricos tem projetos educativos.  Aqui, quando a orquestra faz projeto educativo é assim: chega um ônibus cheio de criança, elas sentam ali, assistem um cara de costas, que não fala com elas, tocando uma música que não tem letra, por duas horas, sem intervalo. Ela nunca mais vai querer voltar naquela chatice!  Você não diz pra ela o que é aquilo e por que ela está ali. Fora daqui as instituições se deram conta que se não incluíssem projetos educativos elas não iam mais ter patrocínio. As instituições culturais aqui não vão atrás disso. Há que se incluir a comunidade, a orquestra precisa deixar de ser esse elefante branco, indivisível, em cima de um palco onde pouquíssimas pessoas podem se sentar. A orquestra é uma soma de vários conjuntos. Por que não pegar um quinteto de cortas para tocar Beethoven numa escola?  A orquestra cabe em qualquer lugar. As pessoas aqui estão muito confortáveis nas suas posições.

As orquestras que participaram do Transform, como a Aurora e a Scottish Ensemble, são famosas por promover a ideia de orquestra acessível. O que você acha desses modelos de gestão?

Como eu sou bem conhecida por minha língua ácida, não tenho problema em dizer isso: eu acho que de um modo geral os músicos de fora são infinitamente melhor formados. Seu background é mais sólido, a começar pela escola regular, que é melhor. Eles já saem ganhando da gente. E não devemos esquecer que música no Brasil é uma profissão para classes médias-baixas. Fora do Brasil, sobretudo no norte, é para média-média e às vezes média-alta. Portanto, um músico da Aurora já teve uma formação de base melhor, anseios culturais mais elevados, uma compreensão melhor do seu papel na sociedade, conviveu e usufruiu cultura geral melhor que o nosso músico. Fazer música abrirá novas portas para ele. No Brasil nós temos um contingente altíssimo de músicos e estudantes de música evangélicos. Isso quer dizer que a perspectiva é bastante conservadora do ponto de vista do comportamento e da cultura em geral, e a música é sobretudo uma possibilidade de ascensão social. O Estado já tinha que estar pensando nessa questão, pra que isso não se cristalize e a gente não tenha conjuntos excessivamente conservadores. Isso é muito grave e me dá muito medo. Acho que tem mais compromisso político nas sociedades de fora porque elas entendem a democracia há mais tempo, a importância da sociedade civil participar, e elas também tem uma questão que é um mercado muito restrito.  O fato de no Brasil as instituições receberem dinheiro do governo sem terem que se preocupar com os pobres, com os velhos, com os deficientes...ninguém cobra nada delas. Mas orquestras estão fechando nessa crise, não abrindo. Os jovens músicos vão ser empurrados a descobrir novas formas de fazer música e isso é parte da história da Scottish Ensemble e da Aurora. São outros espaços que eles tiveram que encontrar, outra música que não a orquestra sinfônica. Eu acho que talvez a sociedade empurre esses moços também aqui para repensar a orquestra. A ascensão dos músicos paupérrimos, dos evangélicos tem vários lados positivos. Esses moços que estão começando a ser educados agora querem fazer algo por suas comunidades. As duas orquestras que você citou estão cuidando de velhos, estão cuidando de dementes, que são as grandes questões dos países ricos. Os nossos músicos talvez façam essa mudança, prefiram ensinar música, fazer conjuntos menores em vez do orquestrão, porque eles querem fazer algo pelos lugares de onde saíram.

Como Brasil e Reino Unido se comparam no setor orquestral e o que o Brasil pode aprender nesse intercâmbio?

Eles diferem completamente, primeiro porque todas as orquestras do Brasil, com exceção de três, são públicas. No Reino Unido não tem orquestra pública, são todas privadas, organizações sem fins lucrativos ou propriedades dos músicos. Por isso elas se repensam permanentemente, porque a questão da sobrevivência é muito dura. Mais dura ainda pras londrinas, porque em Londres existem sete orquestras. Enquanto as orquestras brasileiras fazem três concertos por semana, as de Londres fazem um, e às vezes um a cada quinze dias. Esse músico não tem contrato de trabalho, ele ganha por tarefa, pelas horas ensaiadas e pelo concerto. Aliás, os músicos britânicos são conhecidos como os que melhor leem à primeira vista, e a razão é essa – como não tem dinheiro, não dá pra pagar ensaio. Então às vezes eles executam uma obra dificílima com um único ensaio, no dia do concerto. Isso é muito ruim. Mas isso se reflete na gestão e o cara tem que inventar quatrocentas coisas, inventar convênios com a área social, ou com um benemérito, eles tem que se virar. Coisa que aqui, por ter essa garantia do emprego firme numa orquestra mantida pelo governo dá a ele um certo conforto e a possibilidade de ele ser um pouco alienado e não querer sair de seu buraquinho. A gente pode aprender com eles sobretudo esse compromisso com o público, com a comunidade. Lá eles se desencapsularam da condição do palco e entenderam que fica melhor, mais bonito, mais divertido e importante do ponto de vista artístico se eles saírem dessa posição de só produzir pra você assistir e fizerem coisas junto com a comunidade.

Teve algum momento ou situação durante os projetos que mais te comoveu ou impressionou? Qual foi e por quê?

Eu vi tantas coisas crescerem nesse tempo, mas o que me deixou muito comovida foi ver o encontro Multiorquestra desse ano, em que 300 pessoas do meio musical passaram três dias conversando, discutindo seus problemas, sem se verem como concorrentes – quem acha que é concorrente aqui está demente, porque temos 200 milhões de pessoas e apenas vinte orquestras, quem pode ser concorrente do outro? Você pode fazer mais 200 orquestras que nós ainda não vamos dar conta de fazer boa música pra todo mundo. Essa é uma lógica que lá fora eles já entenderam, de trabalhar em colaboração, associativamente, e acho que nesse encontro as pessoas aqui começaram a entender que isso é possível. E isso foi muito bom.

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PERFIL

Claudia Toni

Gestora Cultural especialista em políticas públicas para as artes e ex-Diretora Executiva da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Transform Orchestra Leadership

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