A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"Acho que arte é revolução."

Conversas com Gisele Calazans

“É onde você pode tocar as pessoas, não necessariamente pela razão - pode entrar pelos poros e te fazer refletir sobre algo que até então não estava no seu campo de reflexão.”

Você foi convidada pela diretora Natália Mallo para a residência artística MayBe, com o bailarino e coreógrafo Marc Brew, para criar uma performance em cinco dias. Como foi esse encontro? Você estava apreensiva?

Eu estava super tensa e muito instigada pela possibilidade de trabalhar com alguém que tinha uma condição de dança com a qual eu nunca tinha trabalhado, uma deficiência física. Eu tinha pesquisado sobre ele, sobre o trabalho dele e estava impressionada com as coisas que ele coreografava, dava pra ver que ele era grande, um grande criador. Fiquei mais apreensiva por perceber que ele era um cara de grandes produções, ele dirige uma companhia de ballet clássico... pensei meu deus!, eu tenho um outro percurso dentro da dança, um caminho muito diferente desse das grandes companhias. Mas o encontro foi incrível, ele é super bacana, generoso e rolou uma empatia logo de cara. Foi tudo muito orgânico, muito colaborativo, não tinha nada imposto.

Em termos técnicos, por ele ter uma forte formação no ballet clássico, e ser cadeirante, e você vir mais da improvisação, teve alguma dificuldade?

Toda a minha apreensão se desfez logo no primeiro encontro, porque apesar da diferença de formações, toda a circunstância que ele está inserido, o acidente que ele sofreu aos 20 e poucos anos quando já era bailarino e a decisão de continuar dançando depois disso, criou nele uma capacidade de produção incrível, uma certeza de que tudo é possível.  Não teve nenhum empecilho, muito pelo contrário. Ele me disse que depois que perdeu o movimento do peito para baixo, não ficou atento àquilo que não podia mais fazer, mas ao que ele podia fazer. Por isso o encontro foi muito mais um diálogo de grandes possibilidades de composições, e não de dificuldades.

A performance Maybe é sobre o relacionamento de um casal; o fato de ele ser um bailarino cadeirante afetou sua percepção da narrativa, ou dele como personagem?

O que mais me impressionou foi que durante o encontro eu me dei conta que o que menos importava era o fato de ele ser cadeirante, às vezes eu até esquecia disso. Era tudo muito horizontal, ele é um coreógrafo, um criador que tem uma noção do espaço de uma forma muito planejada. Acabou sendo uma complementação tão maravilhosa que a questão da deficiência foi o que menos se levou em conta; ela criou, na verdade, uma condição de atenção, de um cuidado que eu tinha que ter em alguns momentos para que a perna dele não prendesse na cadeira durante o movimento, por exemplo, ou de dar um contrapeso nas pernas se eu sentisse que ele ia desequilibrar. Eu tive que criar essa atenção pra uma parte do corpo dele pra cena poder acontecer de forma fluida, então eu tinha que estar atenta. Mas em nenhum momento isso foi um limitador, foi apenas um novo elemento.  Essa concepção da deficiência como um limite é uma visão totalmente social. O limite está em quem vê o limite, porque as possibilidades são outras, só isso. Acho que tudo depende de oportunidade.

Como o seu trabalho se beneficiou do intercâmbio com o Reino Unido?

De muitas formas. Uma foi essa, de passar a ter um olhar muito mais sensível, não só em relação ao trabalho, mas de uma forma mais humana mesmo, de ver como a gente está muito atrasado em relação a isso. Além do encontro internacional, que foi uma grande oportunidade, se abriu um olhar humano, social, sobre a questão da inclusão. A gente não tem isso, as pessoas que tem deficiência não convivem com a gente, não vão ao teatro, não tem nem calçada pra elas. Como fazer amizades, trabalhar juntos, se essas pessoas não tem acesso, se são excluídas, começando pelo espaço, que não é feito pra elas? A gente esquece que elas existem, mas elas estão aí.  E ver que tem uma plataforma como a do Transform que discute isso artisticamente foi incrível, me abriu novas possibilidades, pra pensar em recursos de acessibilidade já na criação do espetáculo, de uma forma gostosa. Sou muito grata a essa parceria.

E quais você acha que foram as suas contribuições nesse intercâmbio?

Que pergunta difícil... Eu acho que a organicidade da minha criação, essa qualidade de um movimento menos formal. O Marc vem do ballet clássico, de uma técnica rigorosa, no desenho, na forma, e talvez a minha contribuição tenha sido humanizar a forma e trazer movimentos mais orgânicos, da dramaturgia do movimento, mais emocional, mas é só um palpite.

Teve algum momento ou situação durante os projetos que mais te comoveu ou impressionou?

Me impressiona o impacto que causa na plateia, as pessoas ficam muito emocionadas, muito tocadas, e você se da conta do quanto isso é necessário. No Reino Unido pensar na questão da acessibilidade é mais comum, mas aqui, não. As pessoas ficam muito impressionadas de ver aquele bailarino tão vivo, criando, de forma tão íntegra, tão trabalhadora. Isso mexe muito com as pessoas, faz elas pensarem ‘o que eu estou fazendo com a minha vida, por que eu não estou me movendo, não estou indo atrás das coisas que eu quero?’.  O Marc sabe que ele tem um papel nisso, ele move as pessoas, e faz elas perceberem que não existe limite para o que elas querem.

Como essa experiência com o Unlimited foi transformadora pra você?

Esse olhar em relação às pessoas com deficiência, da deficiência em si, de que nada disso te limita e que a criação pode ser maravilhosa. Me dei conta de que eu posso expandir minha criação e acessar as muitas possibilidades que existem na sociedade e de chegar a uma plateia muito mais ampla. A gente hoje, no Brasil, não tem acesso para que as pessoas vejam os espetáculos, então o que dizer da possibilidade de elas mesmas serem profissionais, de serem artistas? É uma loucura que a gente não tenha cogitado isso.

AUDIO CLIP

PERFIL

Gisele Calazans

Dançarina e professora
São Paulo – SP

Instagram: @giselecalazans

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Unlimited

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