A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"Queremos trazer uma perspectiva brasileira aos tópicos científicos."

Conversas com Helen Jones

“Como alguém que trabalhou em museus por mais de 30 anos, acho que eles são importantes simplesmente por existirem.”

O grande pensador e escritor sobre museus Stephen Weil disse que sem valor social, os museus serão inúteis. O que você acha que os museus podem fazer para manter e melhorar sua relevância social?

Os museus precisam ter valor além de sua mera existência? Como alguém que trabalhou em museus por mais de 30 anos, acho que eles são importantes simplesmente por existirem e sempre fico um pouco surpresa por nós ainda termos que justificá-los. No entanto, os argumentos para o valor instrumental dos museus são bem ensaiados. Eles contribuem para a  educação, turismo, saúde e bem-estar, construção de comunidades e integração social, pautas de economia criativa etc. Comparados aos museus de arte, os museus de ciência tem uma responsabilidade específica e explícita, que é inspirar novas gerações de cientistas, tecnólogos e engenheiros dos quais as economias locais e nacionais vão depender. Precisamos estar atentos em relação às múltiplas demandas sobre nós, mas não tentar ser tudo para todas as pessoas nem pular constantemente de um modismo a outro. Os museus deveriam focar naquilo que eles fazem melhor, e estabelecer valores claros e estratégias – e trabalhar com outros para atender a objetivos mais amplos.

Nossos programas de arte defendem que uma instituição cultural deve ser uma instituição para todos. Como o Science Museum coloca essa ideia em prática?

Eu disse acima que os museus não deveriam tentar ser tudo para todas as pessoas, mas isso não quer dizer que eles não possam ser acessíveis para todo mundo – eles deveriam ser. O Science Museum é grande o bastante para tocar diferentes projetos e programas  simultaneamente destinados a públicos diferentes. O fundamental para isso é entender os públicos – e os públicos em potencial –, então nós fazemos vários tipos de pesquisa no sentido de ter alguns insights sobre as necessidades das pessoas e suas expectativas, como reduzir as barreiras para a participação, desde pesquisas de mercado de larga escala até pesquisas específicas a cada projeto e sua avaliação, e também por meio de projetos de pesquisa acadêmicos colaborativos de longo prazo. Cada um de nossos museus tem um plano de desenvolvimento de audiência. Nossa equipe de Pesquisa de Público atua nos principais projetos desde o início. Um exemplo de como colocamos essas pesquisas em prática é a Matemática – a Winton Gallery que será inaugurada em dezembro deste ano. Nós percebemos que a matemática é pouco apreciada e é temida por muitas pessoas, mas essas mesmas pessoas estão interessadas em saber como ela impacta suas vidas. Foi desse modo que elaboramos os temas para a nova galeria, como “Guerra e Paz”, por exemplo.

O seminário Museus e seus Públicos, realizado em 2015, consolidou parcerias importantes entre instituições britânicas e brasileiras, tal como a assinada entre o Science Museum London e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Como ela vai funcionar?

O seminário do British Council proporcionou a ocasião para que o Science Museum Group e o Museu do Amanhã assinassem seu primeiro acordo de cooperação, em junho de 2015 – por apenas um ano, já que o Museu do Amanhã ainda não tinha sido inaugurado. Agora nós estendemos e aprofundamos a relação através da assinatura de um acordo de cooperação de três anos, assinado em agosto de 2016. Nós esperamos trocar e co-desenvolver exposições além de compartilhar atividades de desenvolvimento profissional entre as nossas equipes.

O Programa Transform de Museus criou uma plataforma de troca de conhecimentos e melhores práticas entre instituições brasileiras e britânicas. O que o Reino Unido aprendeu desse intercâmbio?

Minha impressão do setor brasileiro de museus é de um enorme potencial. Há um entendimento bastante sofisticado do que os museus podem fazer, e alguns ótimos exemplos práticos. Há também um grande apetite por um desenvolvimento rápido e por se envolver com o cenário internacional. O que ainda está crescendo é o estabelecimento de uma infraestrutura e o hábito de visitar museus entre o grande público, e ser integrado às pautas políticas. No momento, o clima político e econômico no Brasil é incerto. É muito saudável para as instituições britânicas ser lembradas de algumas coisas que damos como certas e ter que considerar os fundamentos dos nossos propósitos e operações.  E também de algumas questões que achamos importantes mas predominantemente teóricas no Reino Unido, como a mudança climática, muito mais real e imediata no Brasil. Decididamente nós queremos trazer uma perspectiva brasileira para tópicos científicos, tais como controle de doenças e resistência a antibióticos. Em termos de técnicas museológicas, eu vi alguns usos muito inteligentes do conteúdo digital – no Museu do Amanhã, claro, mas também no Museu do Futebol, em São Paulo.

Um dos maiores desafios dos museus atualmente é como desenvolver novos públicos. Como o Science Museum encara essa questão?

Eu já falei da pesquisa de público que fazemos. Mas nós também fazemos pesquisas sobre aqueles que não visitam nossos museus. Muito frequentemente nós somos percebidos como um lugar para crianças. De fato, dois terços dos nossos visitantes  vem em grupos que incluem crianças, tanto com a família como em grupos escolares. E o Science Museum é um dos mais populares entre todos os museus do Reino Unido para grupos escolares – mais de 450 mil visitas por ano. Nós queremos nutrir esse público, mas nosso plano de desenvolvimento de públicos identificou adultos independentes como um crescimento potencial de audiência, e é onde nós temos focado nossos esforços com algum sucesso: o número de adultos desacompanhados de crianças que visita o museu quase dobrou, de 630 mil em 2004 – 2005 para 1,26 milhões em 2014 – 2015. Isso foi alcançado através de uma combinação de ofertas mais sofisticadas (de exposições, mas também de facilidades como bufê e lojinha) e de marketing, ficando aberto até mais tarde para que os adultos que trabalham possam visitá-lo e tendo alguns programas só para adultos que incluem uma noite mensal com bar, danças, debates, workshops etc.

Tivemos várias conferências ao longo do Programa Transform de Museus que discutiram a acessibilidade em instituições de cultura. Você poderia dar exemplos de recursos de acessibilidade no Science Museum?

Eu mencionaria alguns exemplos em que o Science Museum é um líder no Reino Unido em acesso para surdos e pessoas com deficiências. Primeiramente nós temos o Early Bird, no qual o museu abre mais cedo em alguns sábados exclusivamente para famílias em que um dos membros tem autismo. A ênfase é em mudar para um design inclusivo que beneficie a todos, mais do que ter ofertas separadas. Nosso sistema de tradução para surdos funciona ao contrário do formato usual, tendo primeiro um tradutor principal que é surdo e usa linguagens de sinal, que então será interpretada para o público que pode ouvir.

Teve algum momento especial ao longo do programa no Brasil que você gostaria de compartilhar?

Eu tenho que escolher a visita do Science Museum ao Rio de Janeiro em Agosto de 2016. Eu amei ver nosso diretor, Ian Blatchford, visitando o Museu do Amanhã pela primeira vez e sua reação completamente positiva. Um dos momentos mais especiais foi a assinatura do acordo de parceria, na presença do Secretário de Estado da Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido, do embaixador britânico no Brasil e do Diretor do British Council do Brasil. Nós ficamos muito honrados. Também foi ótimo ver nossas equipes de Educação trabalhando juntas para apresentar uma série de workshops para o público. E, é claro, foi muito especial poder visitar o Rio durante as Olimpíadas e ver a multidão na Praça Mauá. Acho que até agora o museu já ultrapassou a marca de um milhão de visitantes, o que é uma conquista extraordinária.

Veja outras conversas:

AUDIO CLIP

PERFIL

Helen Jones

Chefe de Programas de Apoio - The Science Museum Group (formado pelos Science Museum de Londres, The Museum of Science and Industry em Manchester, the National Railway Museum em York e Shildon, e The National Media Museum em Bradford).

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Programa de Museus

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