A gente se reconhece nas artes.

i

t

f

 

Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte salvou a minha vida."

Conversas com Jenny Sealey

“Foi a minha salvação para a falta de acesso da escola e da vida doméstica.”

Como é dirigir uma companhia de teatro formada também por artistas com deficiências e como tem sido essa busca por uma nova voz teatral através de uma estética do acesso?

Eu sempre trabalhei apenas com artistas com deficiências (e com atores sem deficiência em coproduções integradas) então eu realmente não entendo qual é o problema e por que todo mundo não abraça alguns dos talentos mais extraordinários com quem eu trabalho. Nós nos certificamos de que o roteiro e todo o processo de ensaio, o design do set e a circulação sejam fisicamente acessíveis para que a gente possa focar em criar a melhor produção e explorar a estética artística acessível. O Graeae é pioneiro nessa nova linguagem teatral, e cunhou o termo ‘estética do acesso’ – a integração criativa da linguagem de sinais e áudio descrição com a performance. Cada produção é única não apenas devido à diversidade de performers mas cada roteiro oferece novas abordagens para a estética da acessibilidade. É uma forma emocionante de trabalhar mas só funciona se essa sensibilidade estiver ali desde o começo, permitindo a peça a desafiar você a realmente explorar a forma certa que serve àquela peça em particular e  precisa ser trabalhado com os atores, em diferentes estilos de comunicação que alimentam todo o processo criativo.  Eu amo trabalhar desta maneira porque isso significa que nós nunca nos tornamos banais e isso mantém o frescor e a energia das nossas mentes criativas já que estamos sempre explorando novas formas de fazer um teatro acessível.

Barbara Lisicki, da Shape Arts, disse: “Existe uma distinção do modelo social de deficiência entre limitação física e deficiência, que é uma construção social”. Como você vê essa questão e qual é o papel do Graea na mudança dessa percepção social?

Tudo que diz respeito ao Graeae desde nossa missão até o trabalho que fazemos é abastecido pelo modelo social. Nós levamos o teatro a uma diversidade de teatros e espaços ao ar livre e é isso o que desafia e muda a percepção do público sobre o que é possível, e é um lembrete de que nós também temos direito de estar no palco.

Acessibilidade não diz respeito apenas a tornar os espaços acessíveis, mas também a permitir que pessoas com deficiência sejam protagonistas de espetáculos.  Qual é a contribuição do Unlimited em direção à concretização dessa ideia?

O Unlimited tem feito as pessoas prestarem atenção nas pessoas surdas ou com outras deficiências tomarem a liderança de seu próprio trabalho o que por si só já é uma mensagem poderosa. O trabalho é exibido no prestigiado Southbank Centre em Londres, Tramway em Glasgow e várias outras salas de prestígio. Nosso trabalho não é mais escondido. Está logo ali e estamos orgulhosos dessa absoluta diversidade de estilos de trabalho e é uma celebração das habilidades que temos acumulado pelos últimos 30 anos.

Você dirigiu a peça ‘The Garden’, apresentada em Londres em 2012 e recentemente na Rio 2016. Como foi trabalhar com artistas brasileiros nessa montagem e o que você aprendeu com esse intercâmbio?

‘The Garden’ no Rio foi um desafio maravilhoso, conseguir garantir que o roteiro se tornasse uma parábola lindamente tecida em quatro linguagens diferentes – inglês, português, língua britânica de sinais e Libras -, fluindo sem problemas de uma para outra. O maior desafio foi que Alessandra Ramos aprendesse o roteiro e o traduzisse em linguagem de sinais em apenas quatro dias de ensaio, e nós tínhamos que ter a áudio-descrição ao vivo em vez de usar fones de ouvido. Então nós tivemos a Paula Lopes para ser a voz de Alessandra, fazendo a áudio-descrição, e ela ficou ao lado dela para a tradução em Libras.  Isso também deu aos músicos brasileiros uma liberdade maior para se envolver e brincar com a música e a narrativa. Eu amo essa forma criativa de resolução de problemas, por mais difícil que isso seja, na verdade nos permitiu fazer um espetáculo muito melhor, com uma narrativa mais clara.

O que você acha que Brasil e Reino Unido podem aprender um com o outro em termos de acesso?

Eu estava trabalhando com o polo de circo ‘Crescer e Viver’ e sua companhia ‘Circo Sem Limites’ antes de começar a ensaiar a The Garden, e assistindo sua instrutora de ensino Ana – e ver uma performer cega dando saltos mortais foi um aprendizado e tanto. Eu venho trabalhando com eles desde 2012 e temos aprendido tanto um com o outro! Vinicius Damaus, o Diretor Artístico, me mostrou o plano dos sonhos deles de construir um espaço de treinamento com uma tenda de circo completamente acessível e uma plataforma no topo dela. Isso poderia ser e será (conhecendo Vinicius e Junior Perim) o espaço mais espetacular para que surdos e pessoas com deficiências possam realmente crescer em números como performers de circo.

Você teve algum momento especial ao longo do Unlimited que gostaria de compartilhar com a gente?

A imagem de mil pessoas do público dizendo a palavra ‘tartaruga’ em linguagem de sinais é uma memória muito especial. E o fato de que tivemos os jovens do treinamento Backstage to the Future trabalhando no show com a gente também. Nós não poderíamos ter feito nada sem eles. Eles foram incríveis.

Na sua opinião, o que a arte transforma?

A arte salvou a minha vida quando eu era jovem. Eu fiquei surda aos sete anos de idade, mas continuei com minhas aulas de ballet mesmo que eu não pudesse ouvir completamente a música. Essa foi minha salvação da falta de acesso da escola e da vida doméstica, eu não tinha que ler lábios nem nada – eu apenas seguia a pessoa à minha frente. Eu tenho visto muitos dos meus atores totalmente transformados ao longo do tempo em que estiveram comigo na Graeae, porque pela primeira vez muitos deles não tem que se preocupar com acesso ou sentir que estão sendo olhados por causa de sua deficiência. Eles aprendem a valorizar quem eles são e a aceitar-se, e então no palco eles transformam a percepção da plateia de quem eles são – atores belos e habilidosos!

 

 

Veja outras conversas:

PERFIL

Jenny Sealey

Diretora Artística
Graeae Theatre Company

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Unlimited

Conheça todas as áreas de atuação do Transform:

| Música | Museus | Dança e Teatro | Cinema e Literatura |

| Economia Criativa e Capacitação | Acessibilidade e Direitos Humanos |

 

i

t

f