A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

Conversas com Jo Clifford

“Seja numa mudança profunda da consciência humana ou do sistema político, a arte esteve envolvida nisso.”

Como você vê a questão dos Direitos Humanos e do movimento GLBT hoje no Brasil e no Reino Unido?

Uma das coisas que me orgulha por ser escocesa é que uma pesquisa recente mostrou que em termos de Direitos a Escócia é um dos melhores países para ser GLBT no mundo. Obviamente o Brasil tem muito trabalho pela frente nesse sentido, mas eu recebi um tratamento caloroso e aceitação muito maiores do que eu jamais recebi na Escócia. Isso me impressionou muito, em particular quando estive no hospital em Belo Horizonte. Em termos de comportamento das pessoas, eu diria que a Escócia tem muito a aprender com o Brasil.

Você foi para o hospital durante sua visita ao Brasil? Como foi isso?

Eu tive um desmaio quando estava encenando O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu e fui parar no hospital. No início fiquei numa unidade semi-intensiva de atendimento público, e apesar de os equipamentos serem antigos as pessoas eram muito atenciosas, muito gentis e muito profissionais. Foi difícil ficar internada porque era muito barulhento e não tinha nenhuma privacidade, mas todos foram muito gentis comigo, muito bons. Então eu fui transferida para um quarto particular, com banheiro privativo, ducha, o lugar todo só pra mim, e era muito confortável. Mas as enfermeiras eram bem diferentes. Isso soa muito cínico, mas naquele tipo de quarto elas eram loiras e atraentes, mas não tão boas enfermeiras quanto as do primeiro atendimento que recebi, que eram quase todas negras e excelentes. Tenho a impressão de que existe uma diferença muito grande entre ricos e pobres no Brasil, de que há uma desigualdade inacreditável. Mas tenho que dizer que fiquei muito impressionada, fui muito bem tratada, e quando voltei para a Escócia e visitei meu cardiologista, ele disse que conhecia bem o Brasil e que estava indo para São Paulo porque um colega de lá estava usando uma técnica que ele não conhecia e ia ensiná-lo. Isso é simplesmente fascinante.

De que forma você acha que seu trabalho se beneficiou desse intercâmbio com o Brasil e quais foram as suas contribuições para o cenário artístico brasileiro?

Meu site se chama Teatro do Mundo porque tem uma perspectiva global do trabalho que eu faço. Assim, é incrivelmente importante para mim, como artista, fazer parte do cenário brasileiro de artes cênicas.  Eu senti que foi particularmente importante estar no Brasil nesse momento histórico, e espero que meu trabalho tenha sido útil. Eu sei que aprendi muito e que foi uma experiência muito enriquecedora para mim. Me fez avançar de um jeito que eu mal conseguiria descrever. E é claro que encontrar os artistas maravilhosos envolvidos na produção da versão brasileira da minha peça foi uma experiência realmente profunda e importante para mim.

A que momento histórico exatamente você se refere?

Bem, estou me referindo ao fato de que pouco antes de eu chegar ao Brasil tinha sido votado o impeachment contra a Dilma Roussef, e ela tinha sido substituída por um governo de extrema direita, em que o Presidente e mais doze homens brancos tinham abolido o Ministério da Cultura, o Ministério da Mulher e o Ministério dos Direitos Humanos. Então, a primeira coisa que esses ministros estavam tentando fazer era retroceder o ligeiro avanço nos direitos da população trans, e também notei que eles são muito ligados à igreja Evangélica, que se tornou muito popular e poderosa e isso em parte justifica o aumento da hostilidade contra essa população. Então, o fato de vir ao Brasil como uma mulher abertamente transgênero, com uma peça que retrata Jesus como uma mulher transgênero e deixar claro que não tinha absolutamente nada no Evangelho que justificasse esse tipo de comportamento preconceituoso por parte de religiões cristãs, foi evidentemente muito importante, estar aqui nesse momento fazendo isso.

A versão brasileira da sua peça, escrita por Natália Mallo e interpretada por Renata Carvalho mostra uma perspectiva mais brasileira, de uma travesti sexy, envolvida com drogas e prostituição. Como você se sentiu ao ver o Jesus tão cândido da sua peça sendo representado dessa forma?

Desde o começo da minha carreira como dramaturga, uma vez que eu escrevo para o teatro, eu tenho me empolgado com o fato de que quando eu escrevo uma peça e dou esse texto a um ator ou atriz, eu tenho sempre a sensação de que eles vão me surpreender, de que eles vão ver algo que eu não tinha notado que estava lá, e essa é uma das alegrias de ser uma dramaturga. Então claramente o retrato que Renata faz de Jesus é totalmente diferente do meu – ela é muito mais jovem, mais bonita, muito mais sexy, mais alta, e está absolutamente correto e é maravilhoso que elas trouxeram esses aspectos de um Jesus trans brasileiro. É muito emocionante e muito bonito.

De acordo com um relatório publicado pela ONG Transgender Europe, o Brasil é o país onde mais se assassina a população trans, onde a taxa de suicídio é altíssima e a expectativa de vida não passa dos 35 anos. No entanto, também é o pais onde mais se busca a palavra Transexual na internet. A que você atribui esse paradoxo?

Quando eu era um menino, me disseram para reprimir o lado feminino da minha personalidade, para esconder e enterrar isso a fim de viver como um ‘homem normal’. E o que eu descobri foi que quanto mais eu tentava negar isso, mais forte isso se tornava, e que reprimir não era uma boa ideia. Mas assim que eu fui capaz de começar a aceitar quem eu era, essa pressão se desfez e eu pude viver de um jeito muito mais relaxado e feliz. Se você pensar que a sociedade brasileira é muito machista, onde a população trans é particularmente reprimida e aparentemente negada, você verá que há essa pressão para reprimir essa energia, que é grande e natural. Mas quanto mais você pressiona algo que é grande, mais isso se volta contra você. Minha impressão dos homens heterossexuais brasileiros é que eles tem uma tendência a enojar as travestis, mas ao mesmo tempo eles são totalmente fascinados por elas. São os dois lados da mesma moeda. E isso é realmente muito trágico.  Espero que conforme o tempo passe, os homens brasileiros sejam capazes de se livrar dessa pressão do machismo e que possam se aceitar melhor, porque todo homem tem uma mulher dentro dele, assim como toda mulher tem um homem dentro dela. É perfeitamente natural que os seres humanos sejam muito mais complicados do que essa divisão entre homem e mulher que lhes é permitida. Isso é perfeitamente normal, perfeitamente natural, e eu acho que agora existe, globalmente, uma compreensão nesse sentido, uma compreensão de que o machismo, que dominou o mundo por muitos milhares de anos, precisa chegar ao fim. Se continuarmos seguindo por esse caminho, vamos destruir a nós mesmos. Estamos vivendo num tempo em que o feminismo se torna cada vez mais importante, e cada vez mais valorizado. E isso também é um tipo de pressão. Então esse é um tempo de mudanças profundas, e o Brasil, sendo um país tão grande, poderoso e importante, é crucial para o futuro do mundo.

 

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(Inglês)

PERFIL

Jo Clifford

Dramaturga, poeta e atriz.
Edinburgh, Escócia

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Unlimited, FLUPP e Núcleo de Dramaturgia SESI – British

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