A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte muda trajetórias."

Conversas com Julio Ludemir

“Eu era um menino da Praça de São Pedro, um lugar muito pequenininho em Olinda. Meu repertório era o repertório do futebol, e tudo isso mudou por causa da arte.”

Como foi que aconteceu essa parceria da FLUPP com o Transform?

Nós fomos procurados pelo British Council. Tivemos uma conversa extraordinária em que houve, mais que uma sinergia, uma confluência de interesses e uma coincidência de agendas. Existia naquele momento um movimento do British Council de fazer uma transição das Olimpíadas de Londres para as Olimpíadas do Rio de Janeiro, mas dando um conceito de transformação, o que em geral não é uma coisa que acontece no campo das artes e menos ainda no campo da literatura. Tudo aquilo que a gente falava era coincidente, ia ao encontro de uma agenda que era a agenda do Transform. Era quase uma proposta de casamento, um ‘procura-se uma noiva’, e essa noiva éramos nós.  O British Council foi nosso primeiro parceiro internacional, foi uma legitimação importante que nos levou a outros parceiros internacionais.  A partir dele a gente chegou nos franceses, nos alemães, a gente perdeu o pudor de falar para o mundo. Além disso, eles disponibilizaram uma expertise na produção de festivais que eu e meu sócio, o Écio Salles, não tínhamos – eu sou um escritor, ele é um acadêmico, e mesmo tendo um diálogo muito forte com a periferia, nenhum dos dois tinha protagonizado um festival.

A FLUPP (Festa Literária das Periferias) já está em sua 5ª edição e recebeu prêmios importantes, como o Excellence Awards, concedido pela London Book Fair. Como surgiu a ideia de uma festa literária das periferias?

Ela na verdade surge por conta de um perfil muito particular meu e do Écio. Eu sou um pernambucano, de origem de classe média que quebrou. Meu pai ficou muito doente e deprimido e aquele menino que tinha sido criado para ser um jornalista importante vai para uma escola pública, vai ter uma série de limitações próprias de quem nasce na periferia. O Écio nasceu no Complexo do Alemão e ambos temos uma trajetória que dialogo muito com a periferia. A gente se conheceu na Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu. Se você retomar um pouco, um dos grandes nomes do Brasil é o Paulo Freire, revelador de um Brasil que não teve escola. A grande sacada do Paulo Freire era a alfabetização para adultos. Nos últimos vinte anos nós passamos a ter quase uma universalização da escola fundamental, que se estendeu para a escola do ensino médio, e isso tem uma repercussão na formação de leitores. A gente começou a conviver com aquelas pessoas que cresceram dentro da escola e tiveram acesso a livros, que seria um público leitor e também a primeira geração de negros da periferia que entrou nas universidades. Eu trabalhava com jovens e via que tinha uma juventude lendo e escrevendo. Comecei a perceber que tinha alguma coisa mudando. Eu me aproximei muito da periferia para estudar violência; eu olhava pro jovem como quem olha pro jovem negro violento, o jovem negro que vai virar traficante ou prostituta, e em algum momento eu vi que esse perfil tinha mudado, que era um perfil de jovem que estava fazendo ensino médio e estava interessado em entrar nas universidades. Entendi que ali tinha um negócio chamado leitor. Eu sempre fui pra FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), fui casado com uma editora e por osmose entendia o que era o mercado editorial. Em algum momento eu tive a epifania – vamos fazer isso dentro da periferia! Não porque a gente achava que ia mudar o mundo, mas porque a gente tinha percebido que o mundo estava mudando.

Como foi o preparo das comunidades para a realização da festa?

A FLUPP não é um evento; a FLUPP em algum momento foi processual e agora ela é uma agenda. A gente teve duas grandes sacadas que diferenciam a FLUPP dos demais festivais. A primeira é territorial – existe autor e leitor para além de Paraty. E a segunda grande sacada é a de formar autores, ou de dar escuta aos autores. Por que a gente discorda do concurso literário, por exemplo? Porque ele está procurando um gênio, ele não está procurando alguém em formação, e ele não oferece duas coisas que nosso processo formador oferece. A gente criava um ambiente literário e uma rede literária – pegava um moleque que estava lá na Rocinha, sozinho, que não sabia que tinha um cara na Cidade de Deus, sozinho, escrevendo também, e reunia essas pessoas, que se reconheciam.  A gente já publicou 10 livros com mais de 100 autores, mas nenhum deles fica ali naquele livrinho. A gente oferece uma rede – o British Council, o Consulado Francês, as outras editoras, e várias dessas pessoas conseguiram se descolar de nós. Quanto mais as pessoas pensam nesses autores como algo desconectado de nós, fica mais claro que fomos eficientes.

Na prática, houve algum tipo de aula para esses novos autores?

Eu não chamaria de aula. A gente trabalha com um repertório. A primeira mágica é que a gente criou um ambiente literário. Eu tenho 100 pessoas que estão se reunindo comigo semanalmente, em cada semana em uma favela diferente, o que me dá dois tipos de repertório: primeiro, tenho sempre um autor de expressão (Caco Barcelos, Edney Silvestre...), todos os grandes autores brasileiros já passaram pela FLUPP por esse processo de formação. Eles chegam imensamente desconfiados e saem imensamente encantados. Todos acham que é um projeto demagógico e no entanto veem que tem uma geração de autores sendo formada na periferia. Então tem o Ronaldo Correa de Brito, o Caco Barcelos, o Edney Silvestre pra falar de sua história como autor, dos seus livros etc. E a gente tem um segundo repertório, que é social, de pegar autores que saíram da periferia e foram para o centro. Para que aquele cara que está na Rocinha ou no Borel entenda que é possível ele também fazer essa trajetória. Esse encontro com os escritores diz que é possível.  E tem uma terceira coisa importante, nós mostramos que tudo é literatura. A gente não tenta dizer que está criando uma escola literária com tais e tais características. A gente traz escritores com perfis diferenciados. E tem ainda o repertório da cidade. Cada semana o encontro é num lugar diferente, porque a gente quer que essa nova geração que está emergindo da periferia faça uma nova reflexão sobre a cidade.

Falando em dar escuta a novas temáticas, a dramaturga transgênero escocesa Jo Clifford participou da FLUPP em debates sobre identidade de gênero e literatura. Como foi essa escolha, e como foi a reação do público?

Esse ano vamos homenagear o Caio Fernando Abreu, que é um ícone da literatura gay brasileira. A literatura no Brasil é de macho strength –  mesmo que o cara que seja gay, ele não escreve sobre a temática gay, mas o Caio Fernando escreve.  Quando dissemos para o Luiz Coradazzi [Diretor de Artes do British Council] que íamos homenagear o Caio, ele sugeriu a Jo. Foi uma construção difícil, em alguns momentos se falou em risk assessement (avaliação de risco), porque era uma dupla ou tripla camada de risco: tinha a camada de alguma coisa acontecer na Cidade de Deus, algo como um repique da violência; tinha outra camada que era a homofobia e como as igrejas evangélicas reagiriam a uma trans que escreve sobre Jesus Cristo. Nada mais potencialmente explosivo do que isso. Mas foi absolutamente extraordinário! Diria que esse novo público tem três grandes novidades – tem o autor negro, tem o autor gay negro e tem uma mulher que está falando muito de uma coisa que não é tematizada na literatura feminina brasileira, imagino eu que também não na literatura feminina mundial, sobre a violência contra a mulher, os estupros, sobre o feminicídio e o macho brasileiro respondendo à afirmação da mulher com porrada. Isso está emergindo com muita força dentro dessa narrativa feminina por conta da novidade dessas pessoas dentro desse meio literário. Fiquei muito animado para criar uma plataforma de literatura trans no mundo. O dia da Jo foi um dia sensacional, ela foi imensamente bem recebida. Eu adoraria que a grande novidade literária brasileira fosse uma novidade literária gay, uma novidade trans...enfim, um feminino diferente.

Essa democratização da cultura proposta pela FLUPP converge com os objetivos do Transform e dos programas desenvolvidos pelo British Council. Quais foram as maiores conquistas dessa parceria?

Em primeiro lugar, eu entrava em toda sala dizendo ‘o meu parceiro British Council’. Foi uma legitimação dos nossos primeiros movimentos, começamos daí. E ela também nos internacionaliza e nos pauta de diversas formas. A Susie Nicklin, Diretora de Literatura do British Council foi muito crítica com a gente, mas ela fez coisas muito básicas. Ela disse que o festival era maravilhoso, mas que se eu queria que ele fosse internacional, as mesas tinham que ser traduzidas para o inglês. Eu tive dois embates com o British Council – embate produtivo, criativo, entre parceiros que estão sempre aprendendo um com o outro. Eu sempre quis grandes autores, tem uma frase que diz que grandes autores vão para grandes festivais. E quando eu pedia um autor power eles diziam ‘cara, cresça que a gente traz’. No fundo eu acho que todo mundo quer ser uma Flip, quer aqueles grandes autores da Flip, mas eu aprendi com o British Council a não reivindicar aqueles autores. Quando os primeiros autores foram sugeridos, eram o cara da Jamaica, autores negros... mas tem um jogo de espelhos importante nisso que permitia que o nosso público se identificasse com esses autores.  Eu demorei a entender que é importante pra quem está na plateia ver alguém que a representa. É absolutamente incontestável que o British Council foi o primeiro grande parceiro que nos deu dicas de muitas coisas. Aprendemos desde coisas básicas até entender o que é um grande festival com grandes parceiros.

Você certa vez disse que “o livro transforma sua relação com o mundo e com você mesmo”.  Como se dá essa transformação?

Eu sou um maloqueiro de Olinda. Eu sou um menino da província, que deixei de ser um maloqueiro de Olinda, um menino da província, por conta do livro. Uma secretária de cultura britânica, bem conservadora, disse uma vez brincando ao Paul Heritage: “quando é que você vai deixar de trazer negros que batem tambores do Brasil?”. É óbvio que a cultura negra é absolutamente identificada com os tambores, mas quando você fala de cultura negra, quando você fala de Brasil, você vai pensar em samba, em Pelé, você vai pensar em uma série de símbolos ligados a uma negritude que toca tambor. Mas eu acho que está na hora dessa negritude escrever livro. Nós só vamos nos afirmar como povo respeitado no mundo inteiro na hora em que o British Council levar para Londres um preto que escreve livro. E que escreve livros de uma forma original, não que mimetize o que é feito em Londres. E acho que a gente está fazendo isso. Ali em Olinda, quando eu tive um livro na mão, eu pensei ‘cara, eu quero discutir o mundo’. E quero que a molecada preta da favela discuta o mundo.  Com ousadia, com originalidade. As grandes mudanças da literatura se dão com grandes mudanças sociais – você escreve sobre um novo tempo com uma nova narrativa.

 

 

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PERFIL

Julio Ludemir

Idealizador e curador da FLUPP – Festa Literária das Periferias

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Flupp

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