A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte transforma nossa percepção do ser humano."

Conversas com Katherine Zezerson

“Ela faz lembrar que nós podemos sempre ser mais bondosos e maiores do que somos, e mais, nos lembra de nosso potencial de ser extraordinários.”

Você cuidou da parceria entre o Sage Gateshead e o projeto Santa Marcelina Cultura ao longo do Transform. Quais são os principais objetivos dessa parceria?

O objetivo primário, claro, era melhorar as oportunidades e resultados para as crianças e jovens com quem trabalhamos nas duas instituições. Estávamos muito interessados em algo que fosse mais inclusivo para diferentes idades, nós trabalhamos com todas as idades, com famílias, com pré-escolares bem como com jovens. Algo fundamental para nós era o treinamento e desenvolvimento da educação musical, as diferentes formas que poderíamos desenvolver ambas as instituições em termos de expectativas compartilhadas mas também reconhecendo que algumas coisas são muito específicas de cada cultura e contexto. Fizemos uma estrutura desde o começo em que cada participante do intercâmbio mantinha um diário sobre a sua experiência, com perguntas estruturadas que eram as mesmas para todos, assim conforme o intercâmbio prosseguisse poderíamos ver nossa história se desdobrando. Partimos da ideia do que é uma educação musical democrática e isso realmente nos ajudou a focar e estruturar nossa investigação, isso nos deu um ponto de referência comum porque dentro dessa questão estão os valores que sustentam o trabalho dos dois programas – acreditamos que participação em música é um direito democrático e que educação musical deveria ser conduzida em princípios democráticos.

Você dissemina a ideia de uma educação musical democrática através, entre outras coisas, da capacitação em música para professores. Quais são os princípios desse trabalho?

Acho que uma das coisas que, certamente para mim, é um princípio absolutamente fundamental da educação e portanto da formação de educadores é a ideia de autorreflexão, um espírito contínuo de questionamentos em que você está sempre se perguntando ‘o que está acontecendo aqui, como esse processo de aprendizagem está se desdobrando, quais são os resultados e o que eu tenho eu estou fazendo que está influenciando isso?’. Tentar desenvolver nos professores a ideia que mais do que uma perspectiva fechada baseada em especialidade eles são o líder no aprendizado, os mais visíveis e dinâmicos aprendizes da classe, mostrando uma atitude positiva e aberta a novas informações e experiências.  Essa forma de ensinar não é necessariamente a forma como as pessoas são treinadas, não apenas dentro do paradigma europeu mas também no paradigma Latino Americano. Minha visão pessoal e certamente a visão dos colegas com quem trabalhei no Santa Marcelina Cultura é a que nós queremos representar um modelo diferente onde o professor é um guia sábio e incentivador mais do que um professor no comando. A pergunta ‘o que é uma educação musical democrática?’ muito rapidamente se transformou em ‘como o professor enxerga o que seria uma educação musical democrática, o que ele deveria ser capaz de fazer e o que ele precisa para ser capaz de trabalhar com os estudantes?’. Então nós desenhamos uma grande variedade de intervenções de capacitação baseadas nas coisas que eu tenho feito ao longo de muitos anos no Reino Unido, e no que os colegas do Santa Marcelina Cultura tem feito no Brasil, para criar eventos de treinamento para colegas das duas organizações, mas também para outras comunidades.

O que você aprendeu nesse intercâmbio com o Brasil a partir do Transform?

Você não pode imaginar o quão profunda e literalmente transformadora foi essa experiência, eu diria que há vários insights que colegas compartilharam que variam desde formas de ensinar, de fazer música, até coisas muito profundas, sobre o universo e a condição humana ser a mesma apesar de diferentes realidades sociais.  Para mim uma das coisas mais profundas que eu aprendi com os colegas no Brasil foi que vocês tem uma forma muito característica de considerar o indivíduo dentro da sociedade. Eu sei que vocês têm muitos problemas no Brasil, assim como em qualquer outro lugar, mas eu fiquei profundamente impressionada com o grau de cuidado com os indivíduos nas instituições com que eu trabalhei – com estudantes, professores, equipe –, com o alto nível de consideração e preocupação social, com essa visão profunda da arte como uma forma de campo de treinamento para a alma, e o profundo comprometimento com o indivíduo enquanto se trabalhava coletivamente. Eu achei isso brilhantemente inspirador. Vocês tem uma forma tão alegre de enfrentar os problemas, eu fiquei frequentemente impressionada com a energia positiva das pessoas trabalhando com problemas difíceis, problemas de dinheiro, isso me deixou até envergonhada da forma melancólica que agimos no Reino Unido, isso realmente me fez mudar o meu jeito. Acho que aprendemos muito sobre como sustentar a qualidade artística criando formas de inclusão social e acesso.

O ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Marcelo Mattos, ficou muito impressionado com seu trabalho com jovens músicos e a forma como você criou uma rápida sinergia entre eles. O que você acha que seu trabalho desperta?

Algo sobre contato humano autêntico. Acredito que todo mundo acorda toda manhã desejando ser o melhor que eles podem ser, e acho que nós não dedicamos tempo para apreciar isso, especialmente com os jovens. Se eles vivem em circunstâncias difíceis ou talvez não estejam indo muito bem na escola, nós frequentemente tentamos força-los para tomar outro rumo e usamos um monte de punições ou controle como estratégias. Eu acredito no oposto, em criar um espaço que seja estruturado de tal forma que todos os meus workshops tenham uma aparência de liberdade e fluidez, e espero que as pessoas sintam isso. Precisamos aprender como ouvir uns aos outros, como usar nossa linguagem, não apenas verbal – pode ser visual, podem ser movimentos ou música. Gosto de pensar no meu trabalho como algo que os ajuda a encontrar um ponto comum para que possamos apoiar uns aos outros. Eu tento construir um ambiente onde estamos buscando as coisas juntos, onde respeitamos nossas diferenças e dedicamos tempo a honrar nossa humanidade, o que pode ser por meio de jogos coletivos, fazendo teatro ou cantando.

Na sua opinião, que é o papel da educação musical na formação da subjetividade?

Penso que a música é uma metáfora em um sentido muito real para a experiência humana. Na música somos convidados a experimentar a nós mesmos como parte de um grupo, como indivíduos, a usar linguagem abstrata, a sentir, pensar, refletir, comentar, e podemos fazer isso tudo com ou sem palavras. Então é uma linguagem metafórica muito potente: ela unifica o corpo de um jeito muito particular, nós usamos o corpo mesmo que seja apenas para ouvir música. Veja por exemplo a plateia silenciosa de um concerto de música clássica: você vai ver os corpos se movimentando em relação à música, mesmo que seja apenas um movimento suave, e na maioria das vezes os olhos estão fechados. A neurociência mostra que a atividade cerebral é muito complexa quando ouvimos música, que ela mobiliza todas as partes do cérebro e isso é muito incomum, pois sabemos que a linguagem não faz isso, nem a matemática, mas ouvir música e tocar música usa todas as partes do cérebro, especialmente quando você toca. Há algo que unifica nossos corpos em relação à música e acho que é por isso que a música é tão viciante. Nós relacionamos memória emocional à música de uma forma extraordinária, muito poderosa, e isso nos dá espaço para nos desenvolvermos. Acho que com os jovens a música é o recurso mais potente porque através da música eles podem ser sociais, podem ser indivíduos, podem desenvolver todo tipo de habilidade cognitiva, intelectual e emocional para a vida toda. Eles podem se articular e se expressar com muita alegria, disciplina e autodescoberta.

 

PERFIL

Katherine Zezerson

Musicista e Educadora Musical

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Transform Orchestra Leadership

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