A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte é uma linguagem."

Conversas com Lidia Goldenstein

“E como tal precisa ser aprendida. É uma forma de cultura, de olhar o mundo, e cada vez mais ela está sendo usada como um investimento importante.”

De onde surgiu a ideia dos Diálogos de Economia Criativa e quais eram os objetivos?

A ideia surgiu num encontro que o British Council fez entre vários países da América em Medellín eu fui convidada a participar. Lá, ficou muito claro que o British Council tinha uma atuação extremamente interessante e diversificada, promovendo determinadas áreas da cultura, mas que ele poderia ter um papel ainda mais relevante trazendo a discussão sobre a Economia Criativa que estava e ainda está na liderança da discussão no Reino Unido, pioneiro em trata-la como uma estratégia macro econômica de crescimento. Lá esse debate é muito firme, quer no setor público, na academia ou no setor privado, com impactos muito relevantes. Essa é uma experiência que eu achava altamente benéfica de ser conhecida nas Américas como um todo, onde existe um preconceito muito grande em torno do assunto,  e muita ignorância também.

Para um leigo, brevemente, qual seria o conceito de Economia Criativa?

Esse debate é riquíssimo e como todo debate não tem um consenso. Mais do que isso, mesmo as posições iniciais de definição no Reino Unido vem mudando ao longo do tempo porque está se revelando cada vez mais claro que a economia criativa são todos os setores ligados às novas tecnologias, à criatividade, e que isso vem penetrando a sociedade como um todo de maneira exponencial. Eu acho até que daqui a um tempo não se falará mais nesses termos,  porque ou as pessoas terão um pé no que hoje se chama economia criativa ou deixarão de existir. Mesmo setores tradicionais que não tiverem a inovação introjetada no seu  DNA morrerão porque a competição está aí e ela implica em usar as ferramentas, os saberes, os novos instrumentos ligados quer à criatividade, quer à inovação tecnológica que estão talvez na definição inicial do termo.

Segundo relatório elaborado pela UNESCO e pelo PNUD em 2013,  a Economia Criativa é o setor da economia que mais cresce. Quais são as perspectivas para o setor num momento em que só se fala em crise?

Essa tem sido a minha grande militância desde a primeira vez que eu ouvi  falar em economia criativa. Eu sempre trabalhei com macro economia, com cenários políticos e econômicos, e fui convidada pelo British Council muitos anos atrás para um seminário em Cardiff sobre economia criativa. Lá eu me dei conta de que na verdade esse era o grande instrumento moderno de política pública de estratégia de crescimento, que estava sendo usado de forma explícita no Reino Unido como uma maneira de inserção positiva num mundo cada vez mais globalizado, com uma intensificação da concorrência e com uma revolução tecnológica cuja velocidade e intensidade é incomparável com as outras.  Desde então eu voltei pra cá e brincava que eu só ia sossegar quando os meus pares economistas começassem a falar de economia criativa. Eles agora começam a falar, mas ainda existe um preconceito muito grande. Eles diziam ‘Ah, a Lígia, coitada, agora trabalha com design’, com ar de desprezo, e o pessoal da área de cultura também me olhava com desprezo dizendo ‘bom, é uma economista querendo conspurcar a pureza do mercado da cultura’. Eu fiquei entre dois fogos e toda a questão da economia criativa no Brasil foi apropriada pelo o que eu chamo de hippie velho, por algumas pessoas que achavam que isso queria dizer economia alternativa, defesa do artesanato. Óbvio que o artesanato é fundamental, óbvio que ideias de economias mais sustentáveis, mais colaborativas são absolutamente fundamentais, mas eu estou falando de macro economia, de crescimento e de necessidade de geração de emprego para 210 milhões de habitantes. Então a discussão é sobre como na verdade fazer com que a economia brasileira saia da crise de forma sustentável de longo prazo. Estou convencida de que se a gente não plugar numa modernização da nossa economia – que só poderá ser feita através dos setores da economia criativa –,  a gente vai ter talvez um novo surto de crescimento que será efêmero novamente. É o que eu chamo de voo da galinha. A questão é introjetar a inovação e a criatividade em todos os segmentos da nossa economia, dos mais tradicionais aos mais modernos, algo a meu ver absolutamente transcendental pra gente ter uma superação da crise de fato. Mas infelizmente o país está longe de ter essa reflexão.

E o que é preciso ser feito no Brasil para que se crie esse tipo de reflexão?

Eu acho que uma das coisas fundamentais que eu tenho feito muito é tentar mostrar qual é a dinâmica do capitalismo no mundo moderno, o que é investimento no mundo moderno, ou o que é o investimento principal, que gera valor e gera emprego. Se você pensar numa empresa tipo a Apple, o valor da produção física do iPad na China é 3% .  97% é o quê? Economia criativa, é design desgin desgin, software, design design  design (de produto, de embalagem...). É um setor de serviços altamente sofisticado.  Essa percepção eu acho que o Brasil ainda não tem.

Como Brasil e Reino Unido se comparam em relação à Economia Criativa?

Isso é muito curioso. Nesse mesmo evento em Medellín eu levei alguns cases do Brasil que deixaram os ingleses boquiabertos. A gente tem cases absolutamente fantásticos, que vão desde uma Havaiannas até o SESC de SP, que tem uma penetração imensa na sociedade e um orçamento enorme – e bem utilizado –, até o carnaval, que é a caricatura do Brasil, mas se você pensar no que existe de produção em torno do carnaval é impressionante.  O Brasil tem casos de excelência e todos eles imensos do ponto de vista de volume de recursos, com impactos importantes. Nós temos uma capacidade de mobilização impressionante, mas não tem o pulo do gato de transformar isso num dinamismo da economia como um todo. Eu acho que esta é a grande diferença do Reino Unido, que lançou pela primeira vez o que eles chamaram de uma task force que colocou a economia criativa no centro da macro economia do país, a partir da percepção de que eles tinham o mercado financeiro, que era o que tinha sobrado (a manufatura tinha ido embora para a China), mas que eles tinham que gerar emprego e renda em outro lugar – e nisso a economia criativa foi e é fundamental.

Como o seu trabalho se beneficiou desse intercâmbio entre Brasil e Reino Unido?

Eu sempre falo que sou extremamente grata por ter recebido esse convite para participar do seminário onde eu tomei conhecimento do assunto. Depois disso eu fui inúmeras vezes para a Inglaterra e tive  contato com vários organismos, dos mais diferentes, que trabalham diretamente com economia criativa, sempre com o apoio do British Council. Quando eu propus fazer esses diálogos, eles compraram a ideia e foram absolutamente fantásticos em criar as condições para o projeto acontecer. Eu tenho plena consciência de que sem o British Council  isso não teria ocorrido, e acho que essa publicação [os Diálogos de Economia Criativa, que pode ser baixado aqui] está servindo até agora como uma espécie de  abre-alas para a discussão em vários outros lugares. Eu gostaria muito de dar uma continuidade a esse trabalho porque eu acredito realmente que ele faz diferença.

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PERFIL

Lidia Goldenstein

Doutora em Economia, dedica-se a pesquisas e projetos na área de economia criativa no Brasil e no exterior.

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Diálogos de Economia Criativa

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