A gente se reconhece nas artes.

i

t

f

 

Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte ressignifica tudo."

Conversas com Lucimara Letelier

“Com a arte processamos aquilo que entendíamos de nós mesmos, do outro e das nossas realidades. E começamos a querer transformar tudo a partir desse novo olhar.”

Você faz parte do Transform desde o começo. Poderia contar como foi a construção estratégica do programa e dos desafios enfrentados?

O Transform é um programa de quatro anos, bastante sólido e robusto. Tivemos a oportunidade de trabalhar com mais de 200 instituições em uma mistura muito rica de perfis - produtores, instituições , autoridades, artistas e pessoas que normalmente trabalham juntas, mas há uma diferença grande entre elas no diálogo. A plataforma do Transform possibilitou que estas pessoas repensassem a sua prática dentro de uma reflexão mais ampla entre Brasil e Reino Unido. Desde o princípio nos colocamos à disposição para fazer trocas de muita qualidade e mutualidade. Tiveram alguns recortes constantes como o impacto que instituições e projetos têm nos dois países; o viés de capacitação, focado no que ficaria de legado, de formação das pessoas; o viés de inovação artística e um recorte social, ou seja, que o Transform impactasse no desenvolvimento social das localidades e regiões.  O programa também nasceu da perspectiva de dois curadores, a Jude Kelly e do Southbank Centre, que já trabalhavam com o Brasil, e o Graham Sheffield, nosso diretor global que trouxe suas impressões de um trabalho prévio no país. Nós tivemos que redesenhar estas ideias iniciais ao longo da caminhada, então o Luiz Coradazzi, eu e outras pessoas fomos reconformando essa estratégia para que ela se adaptasse às demandas das pessoas e instituições e refletisse a evolução do próprio Transform.  Aos poucos fomos percebendo a riqueza, a intensidade e os desafios desse processo, e a nossa grande descoberta foi que o Transform se transformou numa plataforma paro Brasil se olhar. Para o setor orquestral e o setor museológico dialogarem com o Reino Unido, por exemplo, eles precisavam se organizar e ter maior clareza de quais são as boas práticas brasileiras e seus desafios. Descobrimos essa grande demanda de diálogo entre os estados brasileiros, entre profissionais diferentes, de cargos e hierarquias diferentes dentro da mesma instituição. O Transform trouxe para o Brasil a possiblidade de olhar para si mesmo antes de pensar em um mecanismo de exportação e intercâmbio de suas metodologias.  O grande desafio nesse processo foi o entendimento tanto do Brasil como do Reino Unido da nossa principal contribuição, que era possibilitar o diálogo e fazer com que isso fosse qualificado com as melhores práticas dos dois países. Nossa posição não era imperialista ou colonizadora, e sim agregadora, num sistema vivo e dinâmico do qual nós também fazemos parte.

Como foi o trabalho do programa Transform de Museus, quais foram os parâmetros e quais foram as ações ao longo do programa?

Quando o programa estava começando, em 2012, chamamos pessoas que são lideranças do setor museológico para ouvi-las: o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), as Secretarias dos Estados (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais), a UNIRIO e a USP, as duas universidades mais representativas em museologia e desenvolvimento de profissionais de museus, e perguntamos qual seria a maior contribuição que o programa poderia dar dentro dessa cooperação entre Brasil e Reino Unido. Foi muito interessante, surgiram muitas demandas, obviamente, e a partir daí redesenhamos o programa proposto pela consultoria britânica para que se adaptasse às necessidades do Brasil e ao mesmo tempo que correspondesse às intenções do Reino Unido.  Criamos então três visitas de estudo, sendo duas no Reino Unido e uma no Brasil. Fomos a Liverpool, Glasgow e Edimburgo, além de Londres, possibilitando uma descentralização na participação britânica. A primeira visita focou em política pública e a segunda em desenvolvimento de públicos. As prioridades apresentadas pelo Brasil, e incorporadas ao programa, foram em torno da diversificação, atração e qualificação de público, a sustentabilidade econômica dos museus, desenvolvimento de políticas públicas, ativismo social, questões de branding, mídias digitais e inovação, e também a questão do papel do museu para além de tudo que é a sua função principal, daquilo que o museu pode integrar mais à sociedade e à vida das pessoas. O programa, portanto, se desenvolveu como um programa de estudos, seminários e cursos de formação. Também participamos de fóruns que já existiam nos dois países, intermediamos parcerias entre museus e a criação de redes de troca e diálogo continuado.

De que forma o programa de museus pode influenciar em políticas públicas do setor?

O British Council assinou um termo de cooperação com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo que permitiu que existisse um programa contínuo de museus, em que todas as ações (como o Museum Academy ou o Encontro Paulista de Museus) tinham uma reflexão sobre política pública. Representantes da Secretaria estiveram no Museums Galleries Scotland, organização que desenvolve a política pública da Escócia para museus, e discutiram quais indicadores podem inspirar modelos para o Estado de São Paulo com dados comparativos de performance e impacto de seus museus. Foi um marco de reflexão a partir da modelagem escocesa. Além disso, o International Museum Academy é um curso de formação para países em desenvolvimento e o piloto foi no Estado de São Paulo, com a Secretaria, que pode pensar de que maneira os museus podem fortalecer sua plataforma de capacitação dentro das práticas dos museus estaduais. Tanto o Museum Academy como a troca com o Museums Galleries Scotland  são marcos de influência em política pública estadual de museus na relação do Transform com o Estado de São Paulo.

Quais são as principais semelhanças e diferenças entre o setor de museus no Brasil e no Reino Unido e o que os museus britânicos aprenderam com os nossos?

Quando pensamos no Reino Unido, logo nos vem a ideia de um setor de museus estabilizado, público, com milhões de pessoas visitando, e numa prática de gestão muito efetiva e similar à prática de mercado em outros setores de negócio, que contam com um plano estratégico a longo prazo e uma gestão eficiente de pessoas, indicadores de impacto, tudo isso. Quando a gente pensa no setor museológico brasileiro, as diferenças são muito grandes entre estados e entre cidades, temos 3600 museus com características bastante diferentes. Acho que o mais bonito do Transform Museus ao longo desses anos foi identificar os campos de troca que são potentes. Por exemplo, a atuação social dos museus brasileiros como os pontos de memória foi uma área em que os britânicos tiveram um grande interesse para que eles pudessem potencializar sua atuação comunitária no Reino Unido.  Os museus britânicos estão lidando com uma conjuntura bem desafiadora para eles a respeito da população migratória, com o crescimento das periferias, e o Brasil lida com isso há muito tempo e é muito criativo nessa área, desenvolvendo práticas que alguns chamam de museologia social. Os museus britânicos também se interessaram muito pelo sistema de incentivo através da lei Rouanet com a participação de empresas no patrocínio de exposições, pelo modelo OS e Parcerias-Público-Privadas. Em contrapartida os museus brasileiros tiveram contato com as práticas de gestão dos museus britânicos, que envolve não apenas mecanismos de captação mais eficientes como uma forma de lidar com o público bastante formalizada, além de questões de administração. O ativismo dos museus britânicos e a questão da não-neutralidade, a maneira como eles expõem o seu público a um posicionamento mais arriscado sobre causas que são difíceis de tratar também possibilitou um diálogo muito rico com os brasileiros.

Quais são os benefícios de um programa como o International Museum Academy para o Brasil?

O International Museum Academy possibilitou a identificação de capacitação de demandas para capacitação que deflagra as áreas mais frágeis do setor museológico, não só brasileiro mas também no Reino Unido. O MA é um curso internacional que provê treinamento no Reino Unido, em países em desenvolvimento e no Brasil. O principal legado para o Brasil foi a integração dos estados, porque envolvemos Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Porto Alegre que começaram a perceber que existem experiências importantes para trocar entre os estados. Acho que o principal legado tem a ver com a integração, com a formação de redes nessa troca de informação e uma metodologia muito específica que os britânicos trazem que permite que o aprendizado seja autogerido. O IMA busca contribuir com um processo de formação no Brasil que tem a ver com o acesso à informação, com boas práticas mas sobretudo com a formação de lideranças. O curso é voltado a profissionais que chamamos de middle managers, gerentes de museus que serão as lideranças futuras. Acredito que o principal legado do IMA para além do treinamento em si é o empoderamento de uma nova geração de gestores de museu para o futuro das instituições brasileiras.

Teve algum momento marcante ao longo do Transform que você gostaria de compartilhar?

Teve vários momentos marcantes, mas quando começamos a parceria com a FLUPP (Festa Literária das Periferias), eu estava ali no meio das pessoas, muita coisa potente se deu, muita troca. Aconteceu um momento na FLUPP, no Morro dos Prazeres, que seria uma roda com autores britânicos, brasileiros e as pessoas que fazem parte das comunidades que eu teria de mediar. A FLUPP ainda estava começando e nós pensávamos em como seria tudo, então fizemos essa grande roda de conversa e leitura compartilhada dos textos dos autores. E nessa grande roda tinha polícia, criança, associações comunitárias, autores renomados do Reino Unido, autores de periferia do Reino Unido, e tudo ficou tão rico, mas tão rico que a gente não conseguia conter aquela energia. Foi claramente um momento transformador na vida de todos que estavam ali. Ali era um microcosmo da proposta do Transform e naquele momento eu me dei conta do que realmente estávamos fazendo. Porque tem uma construção estratégica inicial, mas à medida que fomos caminhando, fomos nos descobrindo e descobrindo nossa melhor contribuição . Essa roda foi um campo de leitura tão potente, os britânicos dizendo ‘uau!’, eles estavam aprendendo naquele momento com os brasileiros, as crianças e jovens, as pessoas que vivem a literatura em zonas de conflito. Todos se emocionaram e essa oficina que tinha sido pensada pra ser de uns 40 minutos se transformou em duas horas incríveis. Esse foi um momento marcante na minha vida como gestora cultural e também para o British Council. E senti, ali, naquela hora, como a arte transforma nosso olhar sobre tudo. Foi lindo.

 

PERFIL

Lucimara Letelier

Diretora Adjunta Artes, Brasil
British Council

 

Veja outras conversas:

Conheça todas as áreas de atuação do Transform:

| Música | Museus | Dança e Teatro | Cinema e Literatura |

| Economia Criativa e Capacitação | Acessibilidade e Direitos Humanos |

 

i

t

f