A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte amplia a escuta."

Conversas com Luiz Coradazzi

“O Transform  construiu uma capacidade de enxergar o outro além do estereótipo, de ouvir, de estender a mão e abrir a cabeça para novos conceitos.”

De onde surgiu a ideia do Transform e como foi desenvolver um programa tão robusto como esse?

A ideia do Transform não surgiu muito espontaneamente. Havia uma demanda e um interesse de aprofundar as relações culturais entre o Brasil e o Reino Unido por conta do handover das Olimpíadas (Londres 2012 e Rio 2016), mas nunca tinha sido testado dentro do British Council um programa de longa duração e profundidade como esse. A expectativa do Governo Britânico era  aprofundar essa relação através de uma temporada de eventos, mas a resposta do British Council foi distribuir os eventos e projetos ao longo desses quatro anos, não apenas por meio de conteúdos de grande visibilidade mas também de trocas de conhecimentos, técnicas de gestão, técnicas de educação e inclusão. Acho que uma das principais vantagens do Transform é ter sido distribuído ao longo de quatro anos e não ter tido diretrizes muito fixas, a gente teve muito espaço para experimentação de projetos, parceiros, novos modelos de negócio e diálogo.

Qual foi o maior desafio na construção do Transform?

Foram muitos, mas talvez o maior tenha sido estabelecer objetivos claros, saber o que se espera desse intercâmbio em termos de número de participantes, abrangência geográfica, duração dos diálogos e o propósito de cada uma dessas trocas. Mas antes disso acho que tinha uma percepção mútua muito distante da realidade. O Reino Unido e o Brasil não se enxergavam do jeito que eles existem. A visão que um tinha do outro era muito superficial e estereotipada. A caricatura do Brasil é praia, futebol e carnaval. Já o Brasil não vê o Reino Unido, vê a Inglaterra; dentro da Inglaterra só vê Londres, e dentro de Londres só vê o Big Ben e o ônibus de dois andares. Não era uma questão de desconstruir o estereótipo, nem de negá-lo, já que ele que existe por razões históricas e culturais, mas uma questão de mostrar um ao outro o que mais eles têm e o papel desses estereótipos na cultura contemporânea. O primeiro grande desafio foi fazer uma tradução cultural mútua, que não é a tradução do estereótipo mas a abertura do prisma para que um pudesse ver o outro.

Você cuidou muito de perto do TOL – Transform Orquestra Leadership. Como foi esse trabalho e qual era o principal objetivo?

Conversando com colegas e consultores como a Claudia Toni, a gente viu que não se trata apenas de fazer um bom concerto, mas de saber identificar as lideranças desse setor, aqueles que vão ser ativistas por melhores políticas públicas, melhores programas de treinamento, por mais entendimento da importância da música na sociedade. Foi aí que a gente construiu a muitas mãos um programa focado em liderança para o setor de orquestras, que tem uma tradição centenária e precisa urgentemente encontrar novos modelos. No Brasil tem experiências muito vívidas de engajamento social pela música clássica em projetos como o Guri Santa Marcelina, o Neojiba, o Bacarelli e alguns conservatórios. A gente viu que tinha uma moeda de troca muito rica entre os dois países. A gente convidou alguns brasileiros para a conferência anual da ABO - Association of British Orchestras, promoveu visitas ao Brasil e a partir disso desenhou o programa com um objetivo comum – discutir a importância cultural, social e humana da música, e como tornar essa experiência mais rica e mais abrangente para um público maior.

Quais foram os impactos do TOL para o setor de orquestras no Brasil e no Reino Unido?

Eu acho que o mais o mais óbvio é que hoje existe uma comunidade de orquestras brasileiras que se fala, troca experiências e procura colaborar, desde as questões cotidianas até a união em torno da causa comum que são melhores políticas públicas, infraestrutura e educação musical. Essa aglutinação dos agentes brasileiros do setor é uma grande conquista porque não existia a cultura da colaboração mútua antes da primeira conferência de orquestras, em 2014. Isso gerou uma consciência maior de algumas agências governamentais, não todas, infelizmente, mas o Ministério da Cultura, a Funarte e algumas Secretarias de Estado passaram a prestar atenção nas orquestras e na música clássica como uma força motriz do desenvolvimento cultural e social. Em níveis mais individuais teve muitas parcerias novas entre o Brasil e as orquestras britânicas, da Bahia para Bristol, de Londres para São Paulo, planos de turnês, parcerias educativas, trocas de práticas de gestão, e isso tudo acontece organicamente dentro da plataforma de diálogo que o TOL proporcionou. O Reino Unido não tinha um entendimento do setor de orquestras brasileiro. Muito se sabia sobre a OSESP, e praticamente só isso. Ao ter esse contato eles viram a diversidade do setor, aprenderam muito com as práticas sociais, com as políticas de financiamento público no Brasil – inclusive a Lei Rouanet está sendo discutida no Parlamento Britânico especificamente para promover uma isenção fiscal para as orquestras, e isso se deve à plataforma de troca que a gente proporcionou.

Como você vê a questão da relevância social das orquestras, consideradas um produto cultural para a elite, especialmente no Brasil, e o que pode ser feito para mudar essa realidade?

Nas palavras do Ricardo Basto do Neojiba, o modelo de orquestras no Brasil infelizmente ainda é do século 19. Acho que as grandes orquestras sinfônicas, com  formações mais completas e maiores, sempre vão ter seu espaço, sua razão de existir. E outras formações estão surgindo, orquestras jovens, quartetos, coros, orquestras de violões. Esse espectro todo pode conviver, mas o lado mais tradicional, consolidado, que tem uma história centenária precisa literalmente sair da sua zona de conforto. Sair do seu palco, da sua sala de concerto, do seu público já cativo e alcançar outros públicos. É preciso praticar uma filosofia de que a sobrevivência desse setor só vai ser possível na medida em que ele tiver um novo propósito. Citando a Katherine Zeserson, a gente esquece que a música existe não só para ser ouvida, mas também para ser feita pelas pessoas, vivida e não apenas assistida. É preciso investir mais em projetos de participação, educação e formação – não aquele tipo de projeto que deságua ônibus escolares para ver um ensaio aberto porque isso é intimidador e repulsivo para muitos jovens da nova geração; mas em vez disso levar o violino às mãos dele, levar as mãos dele ao piano e leva-lo para o palco também, para conhecer os músicos, as músicas e composições. Esse mundo precisa se tornar menos hermético para sobreviver, porque esse modelo consagrado há séculos não vai sobreviver ao século 21.

E quais são as perspectivas de futuro para o Transform como um todo?

Depois de quatro anos as áreas de maior impacto ou relevância ficaram evidentes. A área de acessibilidade às artes e a questão dos artistas com e sem deficiência trabalhando juntos para mudar a percepção de mundo sobre a deficiência é um valor que vamos manter, e de forma mais abrangente a participação universal por meio das artes, incluindo pessoas GLBT e moradores de rua. Em termos de atividades setoriais o setor de museus vem se fortalecendo e se renovando no seu propósito cultural, social  e científico. É preciso usar a rede de museus que a gente consolidou entre o Brasil e o Reino Unido para levar temas de interesse social como inovação, participação, igualdade de gênero, tecnologia e espaço urbano. Outro setor que a gente gostaria de manter o engajamento é o da música, especialmente formação e fruição. E também áreas como Economia Criativa e desenvolvimento de capacitação profissional para o setor cultural. O Transform 2.0 se aproxima com um pouco mais de refinamento e priorização em torno das ações.

Sob um ponto de vista bem pessoal, o que o Transform transformou na sua vida?

Minha filha nasceu no mesmo mês em que entrei no British Council, em 2011, e hoje ela está com cinco anos, coincidindo com o final do ciclo do Transform. Nesses cinco anos eu vi minha filha crescer e me questionei muitas vezes quais valores eu devo oferecer em sua formação como cidadã, mulher, brasileira e futuro membro da sociedade. E muitos desses valores eu estava aprendendo ou vivendo na prática do nosso trabalho no British Council com o Transform. Ele construiu uma capacidade de enxergar o outro além do estereótipo, de ouvir, de estender a mão e abrir a cabeça para novos conceitos. Implementar o Transform de maneira orgânica, sem manual de instrução, foi mais ou menos como criar um filho, e acho que foi isso que eu, nosso time de artes e nossos parceiros se propuseram a fazer – colocar uma ideia mentalidade nova no mundo.

PERFIL

Luiz Coradazzi

Diretor Artes, Brasil
British Council

 

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