A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

Photo by Ruth Mills

"A arte traz igualdade."

Conversas com Marc Brew

“Quando as pessoas se envolvem com arte, as diferenças deixam de existir e passamos todos a vivenciar as coisas juntos.”

Como o público reage às suas performances? Você tem o desejo de mudar a visão sobre a deficiência e, finalmente, de mudar a atitude em relação a ela? Como você acha que isso é possível?

Nós achamos que a mudança de atitude vem das pessoas vendo o trabalho, um trabalho de alta qualidade feito por artistas com deficiência, então eles param de ver a deficiência e começam a ver a arte pelo que ela é e pelo que ela pode oferecer. Eu acho que é nisso que está a mudança de atitude, quando as pessoas param de ver o que está errado, o que é diferente, mas na verdade a apreciam pelo que ela é.  Decididamente é isso o que eu quero alcançar no que diz respeito ao meu trabalho e ao meu público, quero dizer, é claro que depende do tipo de trabalho que estou mostrando, mas eu realmente sinto que existe um público genuinamente interessado e isso é muito animador.  Meu trabalho solo é muito comovente, poderoso, uma jornada emocional, e ao final é aquele tipo de obra que as pessoas aplaudem de pé, e isso mostra que as pessoas estão realmente tocadas e isso leva um tempo para ser processado. Então eu quero que meu público seja desafiado, comovido, e que viva uma experiência.

Agora, próximo as Paralimpíadas, as pessoas falam muito de superação. Natália Mallo, curadora dos espetáculos que você participou no Brasil, uma vez disse sobre você: “Não se trata de superação; ele é um artista, ele não está se superando, ele está sendo um artista, que ele já era antes de ficar numa cadeira de rodas e continua sendo”. O que você acha desses dois pontos de vista?

Se eu for honesto, para mim, no que diz respeito a ser um bailarino e um artista, a paixão é algo que eu persigo. Inicialmente em minha carreira eu era um bailarino clássico profissional sem deficiência, então eu encontrei uma forma de continuar fazendo aquilo porque ainda tenho aquela paixão dentro de mim e ainda quero ser capaz de me expressar através do movimento, da dança e da arte.  Então, acho que eu decididamente concordo com a Natália e acho muito gentil da parte dela dizer isso. Mas, sabe, o trabalho do artista é a forma que ele tem de se expressar, eu apenas tive que encontrar outras formas de fazer aquilo depois de adquirir uma deficiência.

Mas mesmo agora, vendo em retrospectiva, minha deficiência moldou um pouco a minha arte. Não é como se eu apenas seguisse em frente baseado no cenário da deficiência, mas meu movimento, minha linguagem, minha comunicação, são instruídos por minha deficiência. Portanto acho que concordo com os dois argumentos, a deficiência e a minha arte agora andam juntas.

Como você vê a questão da inclusão tanto no Brasil como no Reino Unido? O que você acha que eles poderiam aprender um com o outro e como foi sua experiência em acessibilidade enquanto esteve aqui?

Acho que você sabe qual é a resposta. Uma coisa que realmente me empolga é a criatividade e a variedade de diferentes artistas que há no Brasil. Eu verdadeiramente sinto que o Brasil é uma incubadora de uma criatividade de fato muito interessante. Foi adorável trabalhar com a [bailarina] Gisele Calazans e com a [diretora] Natália Mallo. O resultado foi o ótimo trabalho que criamos juntos [as performances Maybe e Remember When], e quando o estreamos fomos ovacionados de pé, e acho que isso diz muito. Mas no contexto da acessibilidade, devo dizer que foi uma das coisas mais difíceis e acho que é isso que impede as pessoas de buscar arte e oportunidades como esta, porque o ambiente não é acessível, os lugares não estão abertos à inclusão. Isso foi muito difícil, eu tive que trazer um assistente para nos ajudar principalmente com o acesso aos lugares, já que teríamos que encarar todos aqueles degraus para subir e descer, eu tive que leva-lo para me ajudar já que é impossível eu fazer isso sozinho. A diferença é que no Reino Unido existem leis mais fortes em relação à deficiência e movimentos pelos direitos dos deficientes, então as pessoas tem que fazer ajustes razoáveis para tornar os espaços mais acessíveis.

Como seu trabalho se beneficiou desse intercâmbio com o Brasil?

Para mim não foi apenas como um dançarino, esse intercâmbio realmente me ajudou a crescer. Hoje em dia eu estou frequentemente numa posição em que eu crio, dirijo, lidero, foi tão bom poder ser apenas um dançarino e contribuir com o processo criativo sem ter de liderar o projeto, foi ótimo poder trabalhar juntos.  Eu aprendi muito sobre deixar pra lá, porque normalmente sou tão rígido com horários e os brasileiros tem seu próprio tempo, mas isso não significa que eles não façam o trabalho com paixão.

E quais foram as suas contribuições nessa troca?

Talvez tenha sido meu senso de humor, apesar de eu achar que ele possa ter se perdido na tradução! Brincadeira…. Não sei. Espero que tenha sido mostrar as possibilidades do que pode ser alcançado se forem criadas oportunidades para as pessoas se envolverem, com ou sem deficiência. Espero que tenha sido isso.

Essa experiência com o Transform foi de alguma forma transformadora para você?

Acho que a coisa mais importante foi ter feito essa conexão entre o Reino Unido e o Brasil, e ter essa porta aberta para possibilidades de cooperação que de outra forma eu não teria tido. Eu pude mostrar meu trabalho no Brasil e também pude colaborar com o trabalho criativo lá, e nada disso teria sido possível sem a ação do British Council no Brasil.


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PERFIL

Marc Brew

Dançarino, Coreógrafo e Diretor Artístico da Marc Brew Company

Glasgow, Escócia

Instagram: @marcbrew

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