A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"Sem a arte voltaríamos a ser selvagens."

Conversas com Mark Pemberton

“A arte nos mantém longe das necessidades mundanas da vida e põe nosso cérebro pra trabalhar.”

Um dos maiores desafios das orquestras hoje em dia é não apenas manter como desenvolver novas audiências. Qual é o papel da Associação Britânica de Orquestras nesse sentido?

O que a ABO pode fazer é ajudar seus membros a aprenderem uns com os outros, e nós temos encontros regulares onde as pessoas podem compartilhar o que estão fazendo e por isso é importante ter uma associação. O que estamos descobrindo em relação ao desenvolvimento de novas audiências é que talvez  exista um mito em colocar as orquestras em novos contextos (por exemplo em casas noturnas, mais visibilidade para uma audiência mais jovem, entrada franca etc), que isso não necessariamente se traduz em uma nova audiência. Não há nada de errado nisso. O que a ABO faz é oferecer uma nova variedade de atividades voltadas para públicos diferentes.

Parece que o público das orquestras está envelhecendo e não está sendo substituído. Por que você acha que isso está acontecendo?

Isso é verdade? Onde está a evidência que comprova isso? Na verdade nós acabamos de ter uma reunião para avaliar os dados mais recentes sobre o público de música clássica no Reino Unido e o que eles mostram é que tivemos um crescimento de 25% na audiência de orquestras em relação a 2009. Então não há evidências de que a audiência esteja diminuindo. A população inteira está envelhecendo, mas isso é ruim? O que temos visto em termos de evidências de uma organização chamada The Audience Agency é que existe uma diferença entre o que está acontecendo em Londres e o que está acontecendo fora de Londres. Londres tem um público estatisticamente mais jovem; fora de Londres o público é mais velho mas ele frequenta menos as artes em geral. Se as orquestras não existissem, eles não estariam engajados com nenhuma forma de arte. Portanto é bom que as orquestras estejam lá para responder à necessidade de uma audiência mais velha. Como consequência, nós vemos esse público mais velho como uma oportunidade, não uma ameaça. A discussão sobre o envelhecimento do público é realmente interessante.  Eles não se preocupam tanto com isso em outros países europeus. Somente o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e alguns outros países que se preocupam com isso o tempo todo. Se você olhar pra trás, para o que as pessoas escreviam em relação às orquestras em nas décadas de 1920 e 30, todos eles perguntavam “Por que o público é tão velho?”.

O Transform Orchestra Leadership (TOL) promoveu vários debates sobre a relevância social das orquestras na sociedade contemporânea.  Qual é essa relevância em seu ponto de vista?

Isso é tão complicado. Relevância é a grande questão para nós no Reino Unido. “Você não é relevante” significa que a palavra ‘relevante’ é elitista. O que eles querem dizer é que você está sempre falando com os ricos, e que você não é relevante para os jovens. Portanto as orquestras podem se posicionar de forma a ser relevantes para os jovens e para um público mais variado. Isso não necessariamente se traduz em um público mais jovem e diverso, mas não impede que a orquestra esteja em todo e qualquer lugar em qualquer forma, pois ela é uma criatura em evolução, que pode existir fora da sala de concerto e se apresentar em outros lugares. Isso significa que você está a um só tempo trabalhando com comunidades em educação, se apresentando em espaços diferentes mas mantendo o programa da sala de concerto.  É uma questão de ser mais flexível e ter uma oferta mais ampla. É através de grandes lideranças que nos vamos aprender, e é através delas que vamos inspirar todos, gestores de orquestras e músicos. Deve haver uma disposição de todas as partes para por a orquestra em configurações diferentes,  porque se ficarmos confinados à sala de concerto, apenas tocando um repertório do século XIX, para o mesmo público, então de fato nós não somos relevantes. Por exemplo, de que forma a Sala São Paulo é relevante para todos aqueles usuários de drogas pobres que a cercam? Como ela pode ajuda-los a diminuir essa vulnerabilidade social?  Ela não pode simplesmente fechar suas portas e dizer ‘essas pessoas não importam’. As orquestras no Reino Unido são desafiadas pela percepção pública de ser elitistas, de ser uma arte erudita. É muito difícil mas temos que responder a isso se queremos sobreviver.

Como foi esse intercâmbio entre Brasil e Reino Unido ao longo do Transform e o que você aprendeu nessa experiência?

Nós aprendemos muito e foi realmente muito interessante conhecer a fundo como as orquestras trabalham em outro país. Há muitas orquestras no Brasil e ótimas salas de concerto. Quando começamos esse projeto, nenhum de nós tinha ideia do que aconteceria no Brasil em relação à crise política e econômica, nós vimos o país mudar nos últimos três anos e isso criou mais pressão sobre as orquestras em torno de sua relação com o governo e a forma como eram financiadas. Nós também aprendemos muito com a ação social do projeto Guri Santa Marcelina, era impressionante a forma como a música é usada como uma ferramenta para melhoria da vida de pessoas em situação de vulnerabilidade. Temos muito que aprender com isso e seria maravilhoso se pudéssemos criar intervenções tão ambiciosas como essas. O problema é que não temos o dinheiro para replicar o que vocês estão fazendo no Brasil. Em relação ao que as orquestras brasileiras podem aprender conosco, acho que é como ser mais flexível. Uma questão que discutimos muito nos últimos três anos é como envolver os músicos no processo de tomada de decisões e como ser democrático na forma como você trabalha. No Brasil músicos e administradores estão realmente separados. E ao contrário, nós acreditamos que os músicos precisam ter uma voz e precisam se envolver ativamente num trabalho colaborativo para criar uma visão estratégica para suas orquestras.

Você teve algum momento especial durante o TOL que gostaria de compartilhar com a gente?

Um momento que foi de fato um passo adiante na última conferência foi o encontro com jovens gestores. Ao longo da conferência teve um programa de treinamento e esses jovens, futuros líderes,  vieram ao palco e falaram sobre sua visão do que seriam as orquestras. Aquele momento foi incrível pra mim porque foi possível ver um future seguro para as orquestras brasileiras, porque eles são o futuro e vão assegurar que as orquestras brasileiras continuem. Um dos objetivos do programa era ajudar as orquestras brasileiras a criar sua própria associação, a Associação Brasileira de Orquestras (ABO), e nós realmente queremos que eles mantenham a fé nela porque diante desafios você precisa de uma voz única que possa falar em nível federal e que possa resolver alguns problemas. Se as orquestras trabalharem separadamente elas não vão se beneficiar. Elas precisam se unir em torno dessa voz única.

 

Veja outras conversas:

PERFIL

Mark Pemberton

Association of British Orchestras (ABO)

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