A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte transforma o olhar."

Conversas com Natália Mallo

“Você vê as coisas de outro jeito, você descondiciona a maneira de ver, de compreender tudo.”

Você transita por temas delicados e que ainda estão começando a ser debatidos no Brasil, como no espetáculo de dança com o bailarino cadeirante Marc Brew, por exemplo. Como tem sido a reação do público até o momento?

A gente vê muito pelos depoimentos uma transformação desse olhar. Eu acho que a deficiência ainda gera muito preconceito, muita rejeição. É a maior minoria, né? – eu li que 10% da população tem alguma deficiência. E onde estão essas pessoas? Onde estão os cadeirantes? Dá a impressão que não tem, né? Mas é porque não tem acesso, e começa na arquitetura, na rampa, na rua... Desde o carro, a entrada no carro, descer, chegar nos lugares, no banheiro... sempre tem barreiras. Começando pelas físicas. Mas ainda tem a barreira da mentalidade, da terminologia, em como as pessoas se referem, são assuntos ainda um pouco tabu. Quando dizem [sobre o Marc Brew] que é uma história de superação, eu digo que não é superação, é um artista, ele não está se superando, ele está sendo um artista, que ele já era antes de ser cadeirante e continua sendo. Eu sinto pelas pessoas que o espetáculo foi um antes e depois, que passaram a ver as coisas de um jeito diferente.

Você tem outro projeto que faz parte do Transform que é a montagem de uma peça da Jo Clifford sobre transgeneridade. O que essa peça causou em você para que você quisesse adaptá-la?

Eu vi a peça dela na Escócia, a convite do British Council, e fiquei totalmente chocada, maravilhada, apaixonada pelo trabalho. Me tocou muito, foi meio que uma experiência mística e ao mesmo tempo um soco no estômago em relação às questões de gênero, da opressão da mulher, da questão da vida espiritual – o que é ter uma vida espiritual hoje, o que é ser espiritualizado, onde está a humanidade quando se trata de ver o outro diferente, a  alteridade? Eu saí da peça bem louca, pensando que tinha que levar isso pro Brasil. A gente foi apresentada naquela note, eu falei pra ela o quanto eu estava apaixonada e queria aquele texto, ela o tirou do bolso ali mesmo e me deu. “Leva”, ela disse. Na mesma noite eu fui pro hotel e escrevi uma primeira versão. Eu queria muito montar essa peça no Brasil, no país onde mais se assassina pessoas trans no mundo, e ao mesmo tempo é o país no mundo onde mais se busca a palavra ‘transexual’ no Google, então aqui isso é um trabalho muito necessário.

Como você vê a questão dos Direitos Humanos relacionados ao movimento GLBT hoje em dia no Brasil?

Bom, no Brasil é bem difícil, é bem atrasado. Não tem uma lei de identidade de gênero, é interessante porque de um lado tem uma hipervisibilidade do tema, mas há uma invisibilidade social, de políticas públicas. A gente ainda está engatinhando.  Acho que a prefeitura de São Paulo avançou um pouco, com o programa Transcidadania, a própria parada gay esse ano foi sobre isso, mas eu vejo o Brasil muito retrógrado, muito devagar. Pra mim é uma coisa tão básica, como identidade de gênero, e não tem uma lei que puna a transfobia, tem tantos assassinatos, é óbvio que as políticas públicas tinham que responder a isso, e não estão respondendo. É um mundo que até eu me envolver com esse projeto eu não conhecia. Altíssima taxa de suicídio, as pessoas morrem assassinadas ou por suicídio. Não tem acesso a emprego, a educação, enfim. É uma questão social que precisa ser olhada.

Como o seu trabalho se beneficiou do intercâmbio com o Reino Unido?

Nossa, imensamente! Pra mim é um Antes e Depois. Eu tinha várias inquietações artísticas e coisas que eu queria fazer e que eu não conseguia encontrar muito espaço ou parcerias. Lá eu vi obras e conheci artistas que falaram diretamente comigo, identificação total, me encontrei completamente. Foi um encontro muito íntegro e verdadeiro, os projetos se desenvolveram, tem sido obras muito potentes, com ótimo feedback, as pessoas ficam muito tocadas.

E quais você acha que foram as suas contribuições nesse intercâmbio?

O meu trabalho trouxe uma outra referência para as pessoas de lá, outras maneiras de criar, outros tempos. Onde acho que eu entro com uma coisa boa é que tudo que eu faço tem um trânsito de linguagens, então se eu faço um espetáculo de dança, ele tem também música ao vivo, um diálogo com a literatura, não é puramente dança, tem discurso, tem texto narrativo, quase pode ser visto como teatro. Se eu faço uma peça ela dialoga com instalação, com performance, com uma coisa de artes plásticas. Acho que essa coisa interdisciplinar acrescenta nos projetos.

Teve algum momento ou situação durante os projetos que mais te comoveu ou impressionou?

Acho que tudo me marcou muito, mas o impacto inicial, do primeiro contato com a Jo, ali mudou tudo para mim. E isso é lindo né? Como público, você vai assistir uma coisa e sai transformada, pensando que eu tinha que fazer alguma coisa com aquilo.

Como essa experiência com o Transform foi transformadora pra você?

Pra mim foi muito transformadora de tudo, da minha prática artística, mas também da minha maneira de pensar produção e articulação, como se produz um evento, os standards, os procedimentos, o cuidado com a comunicação, a consistência. O Transform tem uma coragem, uma certa ousadia de apostar em projetos que talvez sejam polêmicos ou que podem trazer debates e despertar questões sociais delicadas. Muitas vezes, diante disso, as instituições recuam, mas o British Council não, pelo contrário. O projeto tá tocando nisso? Vamos lá! Vamos tocar nesse assunto, com cuidado, com excelência artística, com qualidade, tudo muito bem acabado e muito bem comunicado. Foi um apoiador essencial pra mim.

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PERFIL

Natália Mallo

Produtora, diretora, compositora e curadora independente.
São Paulo – SP

Instagram: @natmallo

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