A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"A arte é a forma mais avançada de fazer política."

Conversas com Roberta Estrela D'Alva

“Ela alarga os limites do que é conhecido, transcende os limites da linguagem, do nosso modo de ser e existir e de se relacionar com o tempo.”

Você é uma das fundadoras do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que desenvolve um trabalho de teatro-hip-hop. O que caracteriza esse teatro?

Essa junção surgiu de uma vontade da Claudia Shapira, uma das fundadoras, de encontrar uma forma de trazer a rua pra dentro do teatro. Ela já vinha pesquisando coisas da contemporaneidade e encontrou no impulso da dança a vibração que ela queria pro teatro.  É a junção do teatro com o hip-hop, do teatro épico sobretudo, que surge em oposição ao drama burguês, nasce dos trabalhadores para os trabalhadores, nas fábricas, e traz um ator que tem um ponto de vista, que sabe o que está dizendo ali.  É a junção desse teatro épico com a cultura hip-hop. O teatro hip-hop tem uma linguagem própria, elementos como o ator MC, que junta o ator épico, esse ator-narrador, com o mestre de cerimônias do hip-hop. Os outros elementos são o DJ, o grafite e os dançarinos de rua. O MC não é necessariamente um ator que canta rap, mas um ator que tem um depoimento, que narra a realidade na qual ele vive e tem um ponto de vista sobre essa realidade.

Pode-se dizer que o hip-hop é uma cultura que emergiu da necessidade de sobrevivência nas metrópoles, uma espécie de resistência criativa que envolve música, dança, artes plásticas, moda e forma de pensar. O que caracteriza essa cultura e qual é o seu papel  na sociedade?

O que caracteriza essa cultura são muitas coisas, mas acho que a retomada da possibilidade de existência a quem essa possibilidade foi negada, a possibilidade de ter voz, inovações estéticas, eles criaram uma maneira de dançar que não existia. Não é um desdobramento do balé, é uma colagem, o sample, um pedaço de cada coisa que forma um mosaico e tem a ver com as culturas mestiças, que misturam mas não diluem as várias influências. A dança é feita de muitas coisas, a música, feita de pedaços de histórias, e celebração. Não podemos esquecer do aspecto celebrador, que em todos os tempos a humanidade teve a festa de rua. O hip-hop tem esse caráter de crítica social, de dar voz a quem não tem voz. A periferia é o lugar feito pras pessoas morrerem: você tira toda a infraestrutura, tira a escola, centros comunitários, lazer, condições básicas de saneamento, joga droga e bebida lá dentro, risca o fósforo e deixa queimar. É muito fácil, é um ambiente de exclusão que se empurra pra borda da cidade, mas aí você tem os efeitos colaterais disso, como os arrastões no Rio de Janeiro, por exemplo: você empurra todo mundo pro morro, mas uma hora o morro desce, o que pode ser de muitas maneiras – tem a criminalidade, o tráfico de drogas, e culturalmente você tem o hip-hop, que é uma auto-representação da periferia, um jeito de dizer ‘eu tenho a minha própria voz, não preciso que ninguém conte a minha história por mim, eu conto a minha história”.

Como a arte que nasce nas periferias pode contribuir no combate ao racismo?

Acho que a arte de uma maneira geral, inclusive a que é feita pela periferia, tem um papel central porque a gente viveu 400 anos de escravidão, e mais uma ditadura, então a gente ainda está aprendendo a ser uma democracia. A escravidão contaminou em todos os segmentos, de cima pra baixo, transversalmente, à direita, à esquerda, brancos, negros, pobres, ricos, todos estão contaminados pelo ideário racista. Essa contaminação demorou muito tempo pra ser construída, é uma construção cultural, e como toda cultura, a gente não elimina por decreto – a gente tem uma lei antirracismo que as pessoas vão presas se elas forem racistas, só que ninguém é preso, e o país não deixa de ser racista porque tem uma lei. Porque é uma construção cultural, tá muito no inconsciente, nas relações culturais no dia a dia, tá muito na democracia racial forjada, no racismo cordial. É mais fácil quando você tem uma norma de apartheid, por exemplo, porque o mito da democracia racial escamoteia, parece que não tem racismo mas no dia a dia as relações são super cruéis, numa palavra, numa referência à senzala que é o quarto de empregada na casa. Precisaria de uns 400 anos no mínimo pra desfazer o estrago que esses 400 anos fizeram. Eu sobrevivo porque tem a arte, por ela ter essa capacidade de ser essa máquina do tempo e às vezes ser uma cura. Uma música do Racionais MC consegue curar o complexo de inferioridade de um moleque de 12 anos – ele ouve um rap, uma frase e ele entendeu tudo, porque a poesia transcende a nossa pobreza, o vocabulário, ela ressignifica e te dá a capacidade de se expressar de uma maneira mais ampla, de transcender a miséria que a gente vive nesse dia a dia massacrante.

Teve algum momento especial ou alguma experiência transformadora ao longo do Transform que gostaria de compartilhar?

Não tem um encontro que não transforme se ele é de verdade, seja rápido ou não, porque não tem a ver com o tempo. Tem a ver com disponibilidade, com troca, com conseguir perceber que no fim temos muito que  aprender uns com os outros. Não tem nada que a gente saiba completamente, tem muita coisa no mundo e esses encontros são oportunidades de conhecimento, de aumentar a sua capacidade poética, sua visão de mundo. A diferença, mesmo que seja grande, não precisa ser uma ameaça. A partir da impossibilidade, ou do estranho, a gente pode criar e conseguir conviver. Isso na esfera micro é o que se reflete no planeta, não tem outro jeito de avançar como ser humano, como povo, como humanidade, a não ser pelo diálogo. Esse encontro faz parte da nossa evolução. A arte é a forma mais avançada de se fazer política. Esses campos da arte, esses projetos, essas brechas que vão se abrindo são espaços onde a gente pode experimentar a poesia. Se você quer saber como foi uma época, olha pra arte.

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PERFIL

Roberta Estrela D'Alva

Atriz MC, Diretora e Slammer

Curadora Slam Poetry

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Flupp

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