A gente se reconhece nas artes.

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Imprensa

Conversas Transformadoras
O poder transformador das artes ao olhar dos nossos colaboradores

"Arte nos ajuda a mudar internamente."

Conversas com Simon Dancey

“Você pode ver como as coisas te tocam e te transformam no futuro. Não acho que você possa pedir mais que arte porque ela pode te ajudar a mudar o mundo.”

A economista Lidia Goldenstein disse que a Economia Criativa é o grande instrumento moderno para estratégias de políticas públicas voltadas ao crescimento, o que de acordo com ela vem sendo explicitamente utilizado pelo Reino Unido como forma de inserção positiva num mundo global. Você diria que o Transform contribuiu para o Brasil fazer parte dessa inserção positiva?

O Transform é de fato positivo ao criar networking e ao causar mudanças duradouras em termos de experiências das pessoas, em capacitação na criação de arte e cultura. Em termos de economia criativa, eu não acho que a forma como está sendo construída no Reino Unido seja necessariamente a coisa certa a se fazer. Acho que particularmente a economia criativa no Reino Unido e no Brasil é um conceito reconstrutivo muito estranho, baseado principalmente nas ideias do liberalismo que divorcia as culturas de outros significados que não o econômico, e penso que você precisa construir uma ideia de culturas que seja sobre economia aliada a significados simbólicos, a intervenção social ou uso social-instrumental da cultura.  Acho que apenas ter a economia criativa por si só é um grande erro. E por quê? Porque isso obriga tudo a ser visto pela lente da Economia, inclusive a cultura. Nós podemos usar a cultura como uma forma de compreender uns aos outros, como um meio de expressar as coisas simbolicamente, de usá-la como uma ferramenta social. Tudo isso é posto em segundo lugar, depois do aspecto econômico, e o problema é que você não pode desafiar a economia no mundo contemporâneo, você vê mercados, o valor das coisas em termos de dinheiro, tudo se baseia em medir o impacto econômico, embora eu ache que meu trabalho consiste em desafiar isso tudo e ver que existe outro jeito de olhar para a cultura no mundo. E políticas – fico particularmente interessado quando as pessoas enxergam um jeito diferente de construir significados dentro da cultura que não sejam baseados apenas no aspecto econômico.  Claro que a economia é importante, as pessoas precisam comer, trabalhar no mundo em que vivem mas essa ideia domina demais, essa ideia de ‘como tornar isso sustentável’. Eu quero desafiar isso. O modelo britânico tem sido exportado para o mundo mas eu penso no impacto negativo que isso pode ter. Então, para mim trata-se de descontruir o que economia criativa quer dizer e entender para que a cultura serve. Para mim o melhor exemplo é o Think Tanks no Rio de Janeiro, onde você pode ver a melhor política sendo construída em torno do significado simbólico de cultura, da arte e de elementos sociais e também da economia. Precisam ter os três aspectos juntos e o modelo do qual você falou está focado em apenas um deles, o que eu rejeito intensamente.

Qual é a importância de um programa como o Cultural Skills globalmente e como ele funcionou no Brasil?

O Cultural Skills no Brasil foi uma espécie de piloto para uma ideia a ser testada, pra ver o que ia acontecer, uma espécie de modelo pra ver qual será a resposta. Há dois lugares onde ele funcionou muito bem, em Singapura e no Brasil. O que eu aprendi em relação ao que se deu no Brasil é essa ideia diferente de como a cultura pode funcionar em termos de transformação social, a ideia de que muitas pessoas são apaixonadas por discutir política e cultura, principalmente os jovens. Nesse sentido, eu gosto de ver que as pessoas são muito engajadas no Brasil e isso não acontece no mundo todo, então no Brasil eu tive a possibilidade de trabalhar com pessoas muito engajadas.  Lá o desafio era sobre como as pessoas estruturaram a forma como elas trabalham com cultura, que é muito diferente do modelo europeu. Para mim, era também um olhar para essa divisão norte-sul. Então, como todas essas ideias  importantes fazem um trabalho concreto no Brasil em termos de cultura, aptidões,  capacitação e política? Para mim, o Brasil é um lugar único para experimentar todas essas coisas, e funcionou muito bem. O processo é contínuo e nunca acaba.

Você está trabalhando numa pesquisa de Doutorado sobre Política Cultural Internacional com foco na América Latina. Por que escolheu o Brasil como objeto de estudo?

Antes de tudo, eu passei muito tempo na Colômbia nos anos 90 e fiquei fascinado pela América Latina. Eu estava trabalhando principalmente em conflitos e cultura. Estava realmente interessado no que estava acontecendo lá nos anos 90 e 2000, e todo mundo dizia que um dos lugares mais emocionantes em termos de política era o Brasil (PT, Lula) então fui para lá e comecei a conhecer o Brasil. Estou ciente do que está acontecendo atualmente no país em termos de cultura. Sou particularmente interessado em teorias macroeconômicas e o Brasil é um ótimo modelo na tentativa de impulsionar as coisas. O que ocorre é que as pessoas querem ter certeza que isso funcione bem em termos de mercado global, em termos de empresas multinacionais e eles frequentemente expressam isso através do governo inclusive.

Eu me interesso pelo Brasil porque agora você pode ver onde as coisas estão mudando e a abordagem neoliberalista da política, me interesso em ver como eles extinguem o Ministério da Cultura. Estou apenas triste, independente de qual seja minha linha política, porque quando comecei a trabalhar no Brasil ele estava cheio de esperança e agora as coisas simplesmente não estão bem. Não apenas em termos de cultura, mas também de Direitos Humanos. Em segundo lugar, eu estava interessado no Brasil porque eu venho da periferia no Reino Unido, de uma bagagem da classe operária em Wales, então eu estava realmente interessado em estar na periferia como uma espécie de identificação pessoal. Ser da periferia muda muito sua perspectiva, seu modo de ver as coisas.

 

PERFIL

Simon Dancey

Diretor de Cultural Skills, British Council

PROJETOS TRANSFORM QUE PARTICIPOU:

Backstage to the Future

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